15.11.17

Knight - FotoRC (1).jpg

Foto: Knight - FotoRC

 

Deficiência é uma palavra pesada, carregada de negativismo que a história da Humanidade foi usando e abusando da forma que lhe deu mais jeito. Não é raro ouvirmos na rua alguém chamar deficiente a outra pessoa da forma mais grotesca e gratuita, quando na verdade, a verdadeira deficiência está em quem não aceita a diferença. Eu não tenho grande conhecimento nessa matéria, o que posso referir é que acredito que as pessoas com limitações são um grande exemplo na forma como se superam a si mesmas. É o caso do meu Amigo Iluminado.

O meu Amigo Iluminado era um jovem de 17 anos, no despontar do seu florescimento para a vida, com todos os sonhos nas mãos, quando umas dores muito intensas no joelho direito o levaram na direção do IPO. Assim sem mais nem porquê, foi-lhe diagnosticado um tumor maligno. Após semanas de quimioterapia que não surtiram efeito, o meu Amigo Iluminado foi confrontado com a terrível realidade de que para viver teria de amputar a perna direita acima do joelho. Já disse que ele tinha 17 anos? Recebeu sozinho a notícia numa consulta de grupo, as lágrimas rolaram-lhe pela face durante muito tempo, mas mesmo assim, chegou à enfermaria e almoçou com as lágrimas a misturarem-se na comida. Quando chegaram os pais para a visita e teve que lhes dar a dura notícia, chorou com a Mãe e ainda a confortou o melhor que pode. Desde a cirurgia, até ao momento em que começou a usar a sua primeira prótese, passaram mais de oito meses. Nunca se queixou, nunca se deixou ir abaixo, sabia que era uma questão de escolha: viver ou morrer. O que eu acho mais espantoso para além de toda a força de vontade que sempre demonstrou durante esse processo, foi a Fé que ele sentia e ainda sente.

 

Conhecemo-nos por esses dias, há cerca de oito anos, numa altura em que as trevas ainda circundavam muito a minha vida, e com o passar dos dias fomos cimentando uma amizade e uma cumplicidade excecional. O meu Amigo Iluminado, mesmo morando numa cidade vizinha, tornou-se presença constante na minha vida e, como eu lhe chamava um verdadeiro Mosqueteiro, partilhámos alguns momentos verdadeiramente cúmplices. Foi (ainda é) de longe, um dos melhores amigos com que a vida me presenteou.

O que é que eu aprendi sobre deficiência durante estes anos com o meu Amigo Iluminado? Muito pouco. Mas sobre superação, sobre Fé, sobre acreditar, sobre seguir em frente, o meu Amigo Iluminado deu-me uma grande lição. Por esta altura, já não tem 17 anos, mas continua a ter todos os sonhos do mundo nas mãos e sabe que só depende de si próprio para que estes se realizem.

 

Ana Bessa Martins

Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 07:30  Comentar

13.11.17

Balcony - Hans Dietmann.jpg

Foto: Balcony - Hans Dietmann

 

No outro dia sentei-me num banco de jardim a observar. Observar tudo. As árvores, os carros, as varandas, a roupa a secar nessas varandas. Até observei os cheiros, as texturas, o sabor de tudo. Observar é maravilhoso. Apenas sentir tudo com profunda atenção e com o mínimo de julgamento. Enche o coração de alegria e clarifica o mental. No fundo, é uma meditação. Estar conscientemente concentrado em algo é purificante. É uma das formas mais simples de preencher um vazio da alma, porque quando algo nos falta, seja a nível físico, seja no coração ou na alma, é preciso encontrar aquele lugar que existe em nós, bem lá no fundo, que é onde reside a tranquilidade. É onde se pode perceber de forma quase mágica que tudo acontece por uma razão, que nada é caótico na nossa existência. E esse caminho pode ser encontrado através dos sentidos. Todos eles ou apenas um, nos podem levar a esse estado de apaziguamento. Como? Observando... não com os olhos, mas sim com a Alma. Perceber, aqui, agora, que temos exatamente o que precisamos para evoluir. Nada falta. Tudo está no lugar certo.

 

Sara Almeida

Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 07:30  Comentar

10.11.17

Blind - George Hodan.jpg

Foto: Blind - George Hodan

 

Deficiente é aquele ser incompleto, falho, a quem falta algo. Assim está no dicionário. Mas há que se pensar se nós, seres humanos, não somos por essência seres incompletos?

Na nossa sociedade é fácil reconhecer um deficiente por alguma característica física. Aquele que não pode se mover sem auxílio de uma cadeira de rodas, outro que segue seu caminho a tatear as ruas com um instrumento por não possuir o dom da visão. Algumas deficiências são explícitas, não há como se camuflar. Quem as possui tem que encarar as dificuldades impostas pela limitação física, além dos olhares de piedade das pessoas que andam pelas ruas, todos os dias.

No entanto, cada vez mais podemos observar histórias de pessoas incríveis que não aceitaram as limitações impostas pela sua condição física e vivem a vida da forma mais intensa possível. Desafiam os limites impostos pela medicina e pela sociedade e vivem suas vidas de forma intensa e inspiradora.

 

Por outro lado, há tantos outros deficientes que circulam na rua, mas não carregam no corpo de forma evidente a sua deficiência.

A falta de amor ao próximo é uma deficiência. A ignorância é uma deficiência. O preconceito é uma deficiência. A falta de humildade é uma deficiência. A falta de caráter é uma deficiência. A soberba é uma deficiência. Deficiências que não podemos notar só de olhar para a cara de um sujeito que, na verdade, pode parecer um ser impecável. Pode até ter um bom corpo vestido num bom fato. Mas tem a sua alma deficiente, deformada, degenerada. Como já dizia o ditado popular: “O pior cego é aquele que não quer enxergar”.

 

Leticia Silva

Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 07:30  Comentar

6.11.17

Sunrise - Martyn Cook.jpg

Foto: Sunrise - Martyn Cook

 

Estava um dia cinzento e chuvoso de outono. Sentei-me na esplanada coberta a apreciar o mar agitado.

“- O mar hoje está bonito! Várias tonalidades cinzentas e uma espuma alva borbulhante… Gosto do mar assim, revolto!” Diz-me com um sorriso entusiasmado.

Reparo que a voz vem do homem elegante sentado na mesa vizinha. Ao seu lado aninhado no chão, um cão-guia observa languidamente o tempo que passa.

Perante a minha reação estupefacta, ri-se: “- Ah ah ah! Deve achar estranho um cego como eu, estar a falar-lhe das cores do mar!”

“- Desculpe, não tinha reparado que é invisual. E surpreendeu-me o seu comentário quando o percebi.”

Continuámos a conversar até anoitecer e aprendi que não se É deficiente, ESTÁ-SE deficiente. Relatou que de certo modo todos somos deficientes em alguma função ou caraterística, quer do nosso corpo, quer da nossa vida nos seus variados contextos. Partilhou a sua opinião comigo, que a sociedade tem necessidade de catalogar as deficiências mais óbvias para as poder colmatar de alguma forma, integrando os cidadãos com essas deficiências.

 

Percebi que toda a pessoa é muito mais do que a sua deficiência ou limitação. Quando há uma limitação física, psicológica ou social, a pessoa tenta superar-se, exceder-se nas competências de que dispõe, como forma de mostrar a si e aos outros que também é capaz, que também está ativamente integrado na sociedade. Quando um dos órgãos dos sentidos está em falta, todos os outros se tornam mais apurados e desenvolvidos.

Tal como a vida é efémera, o estar saudável e ser considerado normal sem deficiências é efémero. Talvez se cada cidadão tivesse a consciência de que a sua “normalidade” não passa de um estado efémero, se tornasse mais disponível para compreender e tolerar as diferenças. Por doença, acidente, ou infortúnio, qualquer um de nós está vulnerável a uma alteração e perda das suas capacidades, da sua vida rotineira, normalizada. Como este meu novo amigo, companheiro de contemplação do mar e das suas tonalidades, num acidente de viação que lhe retirou a visão, mas o tornou ainda melhor observador do mundo à sua volta e mais além. Só é cego quem não quer ver!

 

Tayhta Visinho

Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 07:30  Comentar

3.11.17

Business-man - Vigan Hajdari.jpg

Foto: Business-man - Vigan Hajdari

 

Incontáveis vezes escrevi sobre deficiência. Aliás, de uma forma ou outra, todos os dias úteis o faço. Trabalho na APPACDM do Porto, instituição que, desde 1969, presta serviços a pessoas com deficiência intelectual e multideficiência. Faço-o há quase 17 anos e já vi e passei por tudo um pouco. Curiosamente, numa área em que aparentemente pouco muda e nada se “cura”, já muito se alterou no tempo em que cá estou. Começando pelos nomes que se dão às pessoas (débeis mentais, oligofrénicos, atrasados mentais, deficientes mentais, pessoas portadoras de deficiência mental, etc.), passando pelo modelo de intervenção nas idades escolares, acabando na própria visão da sociedade face à existência da diferença e da diversidade humana.

Posso dizer que cedo repudiei etiquetas e categorizações ou avaliações desnecessárias (daquelas que só servem para o técnico que as executa sentir que está a colmatar inseguranças profissionais). Posso dizer que cedo percebi que o melhor deste trabalho (e até vocação) é as pessoas. Os débeis, os idiotas, os atrasados. Enfim, os mais genuínos na sua natureza emocional e comportamental. Sim, claro, todas as pessoas têm filtros e gerem a sua relação com o mundo e com os outros segundo uma ótica individual. Contudo, na relação com as pessoas com quem trabalho, encontrei relações de franqueza, simplicidade e amizade desinteressada. Claro que elas também manipulam. Claro que também mentem, mas mesmo assim as suas mentiras são maioritariamente “puras”, ou pouco relevantes no grande contexto das coisas.

 

Embora não seja minha função “ensinar”, eu sei que muitos aprenderam comigo. E reconheço que muito aprendi com estas pessoas. Humildemente reconheço que o que sou hoje, as minhas atitudes e os meus valores, muito se regem pelas infindáveis horas em que passei, partilhei e pensei com e para eles.

Não se dá o devido valor à palavra incapacidade. Continua a confundir-se (e muito) com deficiência. Continuamos a não perceber como somos mais parecidos do que diferentes. Com o desaparecimento de algumas pessoas vi-me forçado a confrontar a minha incapacidade em aceitar “adequadamente” a morte. Com os problemas graves de comunicação de algumas pessoas vi-me forçado a trabalhar a minha incapacidade em escutar os outros com a devida atenção. Da confrontação com as condições de saúde de algumas pessoas e a sua reduzida esperança de vida, percebi a incapacidade que tinha em reconhecer o extraordinário valor que a própria vida tem.

 

Desculpem o texto algo lamechas, mas a verdade é que a minha experiência de vida (dure o que durar), para sempre e profundamente marcada ficou pelas pessoas com quem tenho a sorte de estar durante a semana. E por aquelas que, já cá não estando, esquecidas nunca serão. Obrigado a todos vós por me fazerem mais capaz.

 

Rui Duarte

Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 07:30  Comentar

30.10.17

Pierre - Salviad.jpg

Foto: Pierre - Salviad

 

Há deficiências e deficiências.

Há as físicas. E as mentais. São um triste presente da genética ou do ato do nascimento. Os “premiados” não escolheram, nem tão pouco podem devolver ou guardar num armário esta oferta indesejada.

 

Mas depois há um certo tipo de deficiência… que é do tipo intelectual. É aquela deficiência que se percebe quando se identificam certos comportamentos, ou quando se desenvolve um diálogo. É uma tacanhez, daquelas que limitam a visão; um egoísmo que inibe o desenvolvimento de valores nobres, uma arrogância que esbate qualquer outra qualidade que a pessoa pudesse ostentar.

Tenho pena, mesmo muita pena (talvez não seja pena…) destes deficientes. Porque estes, ao contrário dos primeiros, não têm consciência da deficiência da qual são portadores. E por isso não podem, jamais, tentar superar-se, melhorar, mitigar essa deficiência. Vistas curtas.

 

Sandrapep

Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 07:30  Comentar

27.10.17

Wheelchair - LonelyTaws.jpg

Foto: Wheelchair - LonelyTaws

 

Cruzei-me com o Armando, o José Pedro, o Justino e o Rui por motivos profissionais. Conheci-os na altura em que estava a escrever uma reportagem especial sobre o Dia Internacional da Pessoa com Deficiência (3 de dezembro). Até então, não tinha tido contacto com pessoas portadoras de algum tipo de deficiência.

 

E perguntar-se-ão vocês quem eles são. São pessoas com caraterísticas como cada ser humano. O Armando era, na altura, deputado na Assembleia Municipal da terra onde vivia; ficou surdo com 13 anos. O José Pedro, um jovem de 24 anos, é amistoso e bem-disposto, com um espírito positivo contagiante e uma vontade de aprender que não lhe cabia no peito; tem paralisia cerebral. O Justino é voluntário e depois de uma fase menos boa deu uma oportunidade a si próprio e aprendeu a lidar com a cegueira que apareceu aos 28 anos. O Rui é escritor, psicólogo e ativista na área da deficiência; está numa cadeira de rodas.

Partilharam comigo as suas histórias. Enquanto os ouvia, ou quando li os seus testemunhos, vi neles o meu próprio reflexo. Vi neles um ser humano, com objetivos de vida, com sonhos, com medos, com esperanças, com utopias, com dúvidas, com incertezas… tal como cada um de nós. Não vi seres especiais, não vi heróis, não vi coitadinhos, não vi diferenças. Vi alguém com vontade de viver e não apenas de sobreviver, sendo aquilo que é sem direito a julgamentos ou discriminações. Como o Rui afirmou: “Não somos nada sozinhos. O que somos, somos porque temos alguém à nossa volta. E ninguém merece ser dispensado de ser quem é”.

Mas nem todos parecemos olhar para estes seres humanos como iguais. E é por isso que precisamos de um dia especial: para lembrarmos e demonstrarmos que somos todos iguais. Tal como o Armando disse: “A sociedade tem um dia para as pessoas com deficiência, mas esquece-se delas no resto dos 364 dias”. Valerá sempre a pena informar, sensibilizar e fazer perceber que ser diferente é bom. Porque a diferença não é o problema. É o poder que cada um de nós tem para compreendermos os outros e, simultaneamente, compreendermo-nos a nós próprios. Afinal, todos somos diferentes. Importante é sabermos viver com as nossas diferenças porque no fim do dia todos temos algo em comum: somos seres humanos. “Todas as pessoas têm deficiências. Aquilo que separa a normalidade da anormalidade é mais fino que uma folha de papel”, declarou o Armando.

 

Deixo aqui um excerto do texto que o Rui escreveu naquela altura para o jornal. Porque melhor do que falar sobre eles, só mesmo ouvi-los, ou lê-los, na primeira pessoa:

“É urgente que nos pare de tratar como heróis ou coitadinhos. Estas duas vidas que nos atribuem são de mentira, não prestam e não as queremos. Compreenda que por trabalharmos, rirmos, praticarmos desporto, namorarmos (etc.) não faz de nós heróis. Ressalvo que são poucos os que conseguem fazer tudo isso, mas asseguro-lhe, não são heróis. E muito menos a maioria que não tem essa oportunidade é composta por coitadinhos. São humanos, tanto os que considera heróis, como os que considera coitadinhos. Humanos. Como você, que coitadinho precisa criar heróis para provar que há vidas piores do que a sua. Não estamos dispostos a isso.”.

 

Sandra Sousa

Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 07:30  Comentar

23.10.17

Parents and children - Kisss.jpg

Foto: Parents and children - Kisss

 

(Sei de Anjos que, apesar de condenados a viver na Terra, nunca perdem as asas nem a inocência)

 

Deficiência: não há modo “soft” de colocar a coisa - a palavra grita-nos, sibilante, o seu significado perfeitamente lato e negativista. E ninguém se furta à sibilina carga de preconceito que ela acarreta, sobretudo pelo medo que todos temos que um filho, um descendente, alguma criança, enfim, do nosso círculo mais estreito de afetos, nos nasça com um qualquer grau de imperfeição ou deformação física ou mental. Ninguém. Todos os pais, todos os parentes de futuros pais, mais ou menos serenamente, contornam esse receio, nem que seja pelo lado mais doce, confiante e otimista: “Menino ou menina?” – “O que se quer é que venha perfeitinho...”

E saudável. E que a mãe tenha uma hora pequenina. O resto não importa. Que venha perfeitinho, é o que todos queremos.

 

“E o que é a perfeição?”

Perfeição, no seu sentido imperfeitamente real e positivista, é ter as proporções consideradas normais e todos os órgãos no seu devido lugar e a exercer com precisão as funções físicas e mentais para que Deus as concebeu, quando nos programou.

Perfeição, no seu sentido mais transcendente, é nascer com a capacidade de se exceder. De ir além. De ver mais longe, mais fundo. De amar melhor. De superar barreiras. De vencer guerras e preconceitos. De ser forte. De sobreviver. De ser feliz.

Ser perfeito é dar-se por inteiro, em inocência e candura, à paixão por quem lhe aceita a imperfeição. Ser perfeito é ter nos olhos um amor desmedido e toda a confiança do mundo em quem lhe ampara a deficiência.

Ser perfeito é receber nos braços a Dor, e transformá-la em Amor. Ser perfeito é ter a ventura de descobrir o quanto é forte, o quanto é poderoso, o quanto é superior a todos os preconceitos do mundo.

 

Não é a todos, que é dada a oportunidade de descobrir o tesouro de Fé e de Força, escondido em si desde que nasceu - e o Amor, todos sabemos, não reconhece imperfeições nem deficiências físicas. Basta que conheçamos uma mãe “perfeita” ou um pai “perfeito” de um filho “imperfeito”. Basta que perguntemos. Basta que observemos: Há uma bênção maior, que os nossos olhos não reconhecem, mas que o nosso coração sente: não existe “deficiência”, para quem ama, existe apenas “diferença”. Não existem seres incapazes, existem seres especiais. Excecionais. E infinitamente capazes de amar além de todos os conceitos humanamente reconhecidos.

 

Teresa Teixeira

Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 07:30  Comentar

20.10.17

Human-rights - Darwin Laganzon.jpg

Foto: Human-rights - Darwin Laganzon

 

A Declaração Universal dos Direitos Humanos prevê a igualdade de direitos para toda e qualquer pessoa, independentemente da sua condição ou proveniência. Cada linha dos seus artigos nasceu do comprometimento de vários Estados membros em cooperação com a Organização das Nações Unidas, proclamando o respeito universal e efetivo dos direitos do Homem e das suas liberdades fundamentais, sejam estas económicas, políticas ou sociais.

 

A minha amiga Susana, mulher extraordinária, teria muito a dizer sobre esta coisa poética da igualdade de acesso e de direitos das pessoas ditas portadoras de deficiência. Nas algumas décadas que já viveu, sofreu na pele a injustiça de uma sociedade patologicamente afetada, impregnada de preconceito, incapaz de ver para lá da sua própria perceção dos outros e das coisas. Se ela gostaria de poder fazer tudo que o comum mortal faz, sem depender de ninguém e ser, simplesmente, quem nasceu para ser? Não tenho dúvidas que sim, tão pouco a tremenda lucidez da Susana me permitiria dizer o contrário. Ninguém, para além dela e dos que partilham desafios semelhantes, sabe o que é viver segregado, aparentemente incluído mas permanentemente em luta, pelo simples direito a existir com toda a dignidade que merece e com toda a coragem que lhe corre nas veias – podia narrar, horas a fio, as muitas coisas fantásticas que ela já fez e que muitos de nós, sem qualquer (aparente) limitação, jamais fariam. Podia descrever, sem ter de florear nem um bocadinho, a força com que se bate todos os dias da sua vida por coisas que tomamos como garantidas e que não valorizamos sequer.

Pode até parecer que é à sua aparente condição física a que me remeto mas, na realidade, não pretendo sequer perder-me nesses pormenores. Quanto mais a conheci, mais me distanciei do que a tornava diferente e mais nitidamente entendi o conceito da verdadeira deficiência. Claramente, não era aquilo que a colocava numa cadeira de rodas mas sim o que lhe era oferecido, numa base regular, pelos que deviam protegê-la. A verdadeira deficiência estava nos que “se envergonhavam” de ir com ela à rua (e lho diziam, com estas mesmas palavras), dos que lhe lembravam todas as coisas que ela não podia fazer, dos que, partilhando o seu sangue, a rotulavam com uma designação que, afinal, nunca lhe pertenceu. Como deve ter doído, mais do que qualquer limitação física (sobretudo, aos olhos dos outros), a maldade dos “seus”, tão cristã (leia-se: levada a cabo por atos, palavras e omissões). Como pode um Ser feito de amor ser um alvo tão fácil?

Todavia, nesta verdade dolorosa, feita de muitos momentos de revolta, não sintam pena da Susana. No seu anonimato, ironicamente, e apesar dos muitos desafios que ainda enfrenta, já viveu mais do que muitos de nós viveram ou viverão. Ser feliz não é a ausência de obstáculos, de problemas, de grandes montanhas a transpor, mas uma escolha, obstinada e diária de, apesar de tudo isso, fazer o melhor de cada dia. É assim que a Susana vive a vida. Há pelo menos quinze anos, testemunhei a audácia desta corajosa mulher que saiu da casa materna solteira e voltou casada, contra tudo e contra todos; e é, desde então, amada, por um marido com um M enorme, por tudo aquilo que ela realmente é: linda, inteligente, criativa, ousada, partilhando, sempre, um sorriso belíssimo com quem tem o privilégio de a conhecer. Levante a mão quem conheceu o amor da sua vida, quem abraça um ser que ama e que lhe devolve amor, todos os dias, durante pelo menos década e meia. Incondicionalmente. Não tenham pena de quem nos lembra os nossos medos, as nossas limitações. Tenham esperança. Desejem, no mínimo, o mesmo.

 

Quero acreditar que caminhamos para um dia de verdadeira equidade, para uma sociedade que inclua todos os seus cidadãos, com dignidade, com respeito, valorizando o que cada ser humano tem de extraordinário. Vejo nas pequenas coisas grandes vitórias e, parte de mim, rejubila. A outra parte, lembra a “minha” Susana, as outras e outros tantos seres como ela, e o seu (ainda demasiado intenso) sofrimento pela inacessibilidade criada, sobretudo, pelas mentes pequenas com demasiado poder. Pelas vozes que os calam, gritando palavras como “verdade, justiça, progresso, inclusão, igualdade”, desprovidas de qualquer significado. Vozes que silenciam os únicos com legitimidade para falar, os que sentem na pele as tais “mudanças miraculosas apregoadas e que colocam todo o cidadão a viver uma vidinha sã e feliz” e que gritariam, sim, a angústia da ignorância alheia, a falta de meios, de condições, de corações preparados e de mãos dadas com a ciência, a acutilância de quem se acha imune ao sofrimento. “Está tudo uma maravilha, está cada vez melhor”, dizem. Outros que não quem de direito, note-se.

Reitero: quero acreditar que caminhamos num sentido mais positivo e humano mas sei que, enquanto andamos para trás e para a frente, regidos por leis bacocas e inviáveis, muitos sofrem. Enquanto me sento para redigir estas linhas, perde-se o potencial humano de tanta gente extraordinária neste planeta. Perde a sociedade que não percebe a singularidade da Susana, e de todos aqueles que considera diferentes, matando o seu potencial. Enquanto se luta por pôr em prática as verdadeiras leis da Equidade, talvez valha a pena investir na intervenção junto dos ditos normais para quem a normatividade é, afinal, uma muleta frágil e sustentada por uma visão limitada e desadaptativa, baseada no medo e na ignorância. São esses os verdadeiros deficientes: os cruéis, os preconceituosos, os críticos de tudo e de todos, os patologicamente insanos, aqueles para quem a Declaração Universal dos Direitos Humanos é apenas uma chalaça de folhetim. É esta a verdadeira deficiência da sociedade. É aqui que tudo começa. É aqui, e em cada um de nós, que deve terminar.

Desculpa, querida Susana, por viveres num mundo que ainda não te merece e que, mesmo assim, tornas tão mais belo pela tua simples existência. Espero, um dia, sermos dignos de gente tão especial quanto tu.

 

Alexandra Vaz

Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 07:30  Comentar

16.10.17

Adult - Pexels.jpg

Foto: Adult - Pexels

 

Diretamente, ainda que titubeando, para as conclusões.

Confesso que não sei, não estou absolutamente certo, mas devo ter algumas, possivelmente tenho, é quase certo que sim. Estou a falar de deficiências. A minha sorte é que as minhas, várias, não são relevadas pela sociedade, aqui e agora, e passo como que incólume. Vejo mal, faltam-me alguns dentes, uso próteses para compensar. Não sei dar cambalhotas...

Vivo numa época e numa sociedade muito sensível à norma, à padronização e, também, nem sei se por contradição se por concomitância, à salvaguarda da diferença.

Talvez seja o caldo de cultura para a emergência do politicamente correto. Há os deficientes físicos, intelectuais, psicossociais, ai de quem os chame de coitadinhos, mas ao mesmo tempo e para as mesmíssimas gentes, a tentação do eufemismo impera. Não há cegos, mas invisuais, não há aleijados, também não fica bem verbalizar o termo “louco”.

 

Complicado. Contraditório? Pois, é a vida. Cairia o Carmo e a Trindade, naqueles unanimismos momentâneos e passageiros, se alguém usasse publicamente a denominação “inválidos”. Apesar de algumas pessoas com deficiência não terem condições de se valer a si próprios.

As coisas são o que são, de acordo com o tempo e com o lugar. Sempre.

Talvez valha a pena recorrer ao que, se bem penso, já vem desde a antiga e democrática Atenas - tratar o que é igual como igual e o que é diferente de forma diferente.

Nem mais, nem menos. Adequado, com aceitação, sem necessidade de eufemismos, que, diria, não são mais do que uma forma de dizer coitadinhos... dos inválidos.

Nada de coitadinhos. Voto contra!

 

Jorge Saraiva

Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 07:30  Comentar

13.10.17

Courage - Tânia Dimas.jpg

Foto: Courage - Tânia Dimas

 

A ideia de deficiência está relacionada, geralmente, com as situações de quem sofre de doença, lesão ou limitação corporal. É compreendida ainda, por alguns, como um facto de má-sorte pessoal.

Todavia, atualmente, são cada vez mais os casos de pessoas que não se resignam com a sua condição de deficiente. Na verdade, todos os dias assistimos a verdadeiros exemplos de superação de dificuldades, de deficiências e de limitações físicas de quem não se conforma com os infortúnios da sua própria vida. Com frequência, ocorrem verdadeiros casos de superação, alguns deles em que os portadores de alguma deficiência, transcendendo-se na procura de objetivos, conseguem concretizar sonhos. Por isso, até são consagrados como heróis pela Sociedade que não lhes fica indiferente e que não lhes regateia compreensão e solidariedade.

 

A deficiência já não é um “bicho-de-sete-cabeças” de há anos atrás e muito menos um problema trágico. A evolução da Sociedade, a nível do seu ordenamento jurídico, ao impor direitos sociais especiais, e do Mundo Científico, no aperfeiçoamento de técnicas de reabilitação, muito tem contribuído para derrubar o preconceito da deficiência. De notar, contudo, que a superação de uma limitação física ou insuficiência de qualquer tipo não depende apenas das condições favoráveis que existam na Comunidade em que se está inserido e dos apoios e carinhos de familiares e de amigos que sejam dispensados à pessoa afetada pela deficiência; mais do que isso, será mister, mesmo indispensável, que a pessoa portadora dessas limitações acredite que é possível transcender-se, superar barreiras e dificuldades, rumo ao objetivo “sonhado”. A superação consiste nisso mesmo: exceder os seus próprios limites, ir mais além, afirmar-se na vida e de viver, se possível, sem dependências. A força de vontade interior, mental e intelectual, qual segunda natureza que é, na motivação da luta diária e persistente, constituirá seguramente a grande fonte inspiradora para quem não se resigna com o seu infortúnio.

 

José Azevedo

Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 07:30  Comentar

9.10.17

Lesson - Beate.jpg

Foto: Lesson - Beate

 

Poderia dizer que é um tema que me diz muito e sobre o qual consigo falar, mas não é…

Penso que qualquer professor ou profissional de educação deverá estar atento a toda e qualquer forma de aprender, que vem com cada uma das crianças com que nos encontramos. Se com elas trazem caraterísticas não comuns, doenças raras, deficiências, é com esses aspetos todos que deveremos tentar lidar, tal como tentamos quando arranjamos estratégias para lidar com uma criança que faz birras todos os dias.

Sobre deficiências apenas tenho a considerar que são alterações ao padrão tido como normal mas, tendo em conta que em cada casa há uma realidade diferente, com ou sem deficiência, todos temos algo fora da normalidade.

 

Aqui o problema (sim, quando se fala em deficiência pensa-se sempre em problema, talvez porque dá mais trabalho e não é processo padrão) é a própria palavra que transmite a ideia de minoria, necessidade, desvio. Esta palavra é pesada e cada vez menos utilizada pelo medo de ofender alguém. Ofensa será deixarmos de fazer o que é suposto, apenas porque há situações que saem do que é previsto, deixarmos de ser quem somos porque somos diferentes, sermos tratados como mais um apenas, ou sermos tratados como extraterrestres quando, na verdade, o bom senso deverá imperar.

Gosto de tratar as coisas pelos nomes sem ofender ninguém, desde tenra idade, será assim tão difícil?

 

Sónia Abrantes

Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 07:30  Comentar

6.10.17

Paracycling - Mucorales.jpg

Foto: Paracycling - Mucorales

 

Não tenho dúvidas da capacidade e do à vontade com que muitos lidam e falam da deficiência. Fazem-no com naturalidade, com conhecimento e sem erros científicos e humanos. Não é o meu caso. Sinto-me ignorante e, estou muito agradecida às forças do universo, ou a qualquer outra força ou energia que me têm poupado a ter de viver e lidar com a deficiência, tal como a minha limitação a entende – o que não está dentro da normalidade. O desconhecimento desta realidade faz de mim um ser inábil no relacionamento com a pessoa com deficiência. Confesso a minha dificuldade em comportar-me e, por incorreto que seja, a verdade é que a diferença torna-me curiosa em relação às causas e aos efeitos. Satisfazer a curiosidade constrange-me com receio de causar algum tipo de sofrimento a quem se sinta observado. O resultado revela-se numa falsa indiferença e numa leviana normalidade da minha parte.

 

Essa dificuldade estende-se também à escrita. Não vejo beleza na condição de deficiente e isso rouba-me inspiração para romancear ou fantasiar à volta do tema. Escrever sobre o quê? Que sei eu do mundo que alguns criam e no qual se refugiam sem deixarem entrar nem mesmo os que lhes estão mais próximos? Que capacidade tenho de entender frases e ideias desconexas, mas com sentido para quem as profere? Que sei eu da força que anima amputados a bater recordes, a melhorarem marcas até aos degraus do pódio? E a que sabe a medalha conquistada? De que sentidos se servem e que processos desenvolvem aqueles que, privados de visão e audição, dançam com tanta delicadeza que nos levam para lá da realidade?

Apesar de nada saber e quase tudo me ser desconhecido, talvez por isso mesmo, espanto-me com os resilientes, os que estabelecem objetivos e lutam pela sua concretização e os que não se deixam atingir na sua dignidade quando lhes devolvem uma imagem de incapazes. A superação das pessoas com deficiência, se outras razões não houvessem, deveria eliminar estigmas e preconceitos. Mas que sei eu? Deficiência minha que nada sei.

 

Cidália Carvalho

Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 07:30  Comentar

4.10.17

CrinabelTeatro.jpg

Foto: Crinabel Teatro

 

Ao entrar na sala de espetáculo, já os atores estavam no palco à nossa espera. De um lado, um grupo de atores sentado, do outro, um ator de pé de frente para o público. Começou o espetáculo. Percebi que a atenção e a concentração tinham de se manter ao longo do espetáculo. E assim foi.

Ao meu lado estava uma pessoa que, tal como eu, tinha experiência de conviver com uma pessoa com deficiência e sentir a sua vida. A Hanna (a menina que procurava o pai) parecia-se tanto com ela! Percebi que a pessoa que estava ao meu lado estava entalada... eu também, confesso. Os atores assumem de forma muito autêntica as personagens de um texto muito intenso.

 

Não é o texto, em si mesmo, de Gonçalo M. Tavares, que me traz a escrever estas linhas. É o encontro desse texto com o projeto Crinabel Teatro. O espetáculo e cada ator são preciosidades. A intensidade com que os atores interpretam as personagens e dizem o texto torna o pensamento e a representação que alguns “normais” têm da deficiência desinteressantes e nada construtivos. Este espetáculo ensina-nos a ver de forma mais cuidada os pormenores mais escondidos presentes no texto, no desempenho dos atores e, acima de tudo, na vida. Há algo a acontecer no palco que nos fascina e nos prende à cadeira. De facto, há mais vida para além do “normal” que nos rodeia. Uma vida preciosa! Parabéns a todo/as!

 

Ermelinda Macedo

Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 07:30  Comentar

2.10.17

Face-LizFranceliBratzArdais.jpg

Foto: Face – Liz Franceli Bratz Ardais

 

Um sonho materializado por vontade paternal. Uma rapariga feita mulher, com toda a existência pela frente. Assim é a Su.

A personificação da alegria, contagiando todos em seu redor. Ela é igualmente um ás a nomear os artistas que ouve na rádio, adora tudo o que é cor-de-rosa e não dispensa os passeios à beira-mar, nem a companhia da família. Claro que também é teimosa e gosta de decidir as refeições de cada dia, mas no seu todo é o melhor presente da sua vida.

E é nisso em que se centram primariamente quando pensam na filha. No que ela trouxe às suas vidas, nas bênçãos que a acompanham, nas aventuras que se somam. Nos risos, nas memórias, nas partilhas. E não nas (in)capacidades de que é portadora. Porque há muito mais além dessa categorização. Um amor imenso, uma ternura que não acaba e também uma certa paciência.

 

Se o dicionário de língua portuguesa nos diz que a deficiência é um substantivo feminino equivalente a falta, imperfeição, ela, pronome pessoal singular feminino, venceu as falhas com outras conquistas, tornando-se verdadeiramente única.

E se olharmos além das faculdades mentais e físicas, ou mesmo incluindo-as, não seremos todos, afinal, portadores de algum grau ou tipo de deficiência? Não seremos todos dotados de faltas e de imperfeições?

É o que nos torna humanos. É o que nos une como família de uma mesma espécie. E nessa consideração ligamo-nos uns aos outros, reconhecendo limites e vencendo outros, tal como a Su o faz.

 

Sara Silva

Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 07:30  Comentar

27.9.17

Woman - Michael Gaida.jpg

Foto: Woman - Michael Gaida

 

Não que já não soubesse. Mas aquela tomada de consciência…

Foi num dia banal, no meio de uma tarefa ainda mais banal. Ou talvez tenha sido aquele momento em que parou o que estava a fazer para olhar em volta e sentir-se grata. E de súbito uma brisa. E, de um sopro, um suspiro vindo da alma. E sentiu uma saudade inexplicável e dolorosa.

Saudade daquelas todas outras que queria ser e não podia. Saudade das tantas mais vidas que queria viver, mas que eram irrealizáveis.

 

Porque ser é muito mais simples do que desejava. E o aceitar uma pessoa é esperar que esta seja algo de coerente. No mínimo, redutor. Tantas outras pessoas que podia ser (e é), mas que não podem espreitar a luz do dia. Não poder seguir esses trilhos, todos ao mesmo tempo (ou intercalados), faz com que não seja, não viva em pleno. E às vezes, uma ponta de tristeza, uma insatisfação que se instala.

 

O vento já não soprava. Em resignação, dedicou-se novamente à banalidade de uma vida normal. Resta-lhe a quimera.

 

Sandrapep

Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 07:30  Comentar

25.9.17

Fantasy-EnriqueMeseguer.jpg

Foto: Fantasy – Enrique Meseguer

 

“Que a saudade é o pior tormento

É pior do que o esquecimento

É pior do que se entrevar

Que a saudade é o pior castigo

E eu não quero levar comigo

A mortalha do amor

Adeus”

Pedaço de mim; Chico Buarque

 

 

A saudade dói, é verdade, às vezes incomoda como um espinho cravado em baixo da unha. Mas que privilégio é poder senti-la.

Sentir saudade é relembrar um passado feliz. Acho que ninguém sente saudades do que é ruim.

É ter sido feliz, muitas vezes sem saber que era... É poder reconhecer a falta. A falta de alguém, a falta de algum lugar, a falta de um tempo que vivemos, ou de tudo junto. Ter saudade é fazer reviver quem se amou, naquele momento único e precioso que jamais voltará. É repetir a mesma história tantas vezes, todos os dias, de forma que essa pessoa que estava no passado, faça parte do presente. É levar consigo a falta dentro do peito onde quer que se vá. É um vazio deixado no tempo mas que ajuda a preenche a alma.

 

Leticia Silva

Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 07:30  Comentar

18.9.17

Father-OlichelAdamovich.jpg

Foto: Father – Olichel Adamovich

 

Agosto é por excelência o mês da saudade. Muitos chegam e muitos partem. Se calhar partem alguns que não chegaram, aproveitando a boa ventura partilhada por familiares próximos. Agosto é também, por excelência, o mês das férias e o mês em que sou “obrigado” a gozar os dias em lei consagrados. Fazem-se planos, junta-se a família e espera-se pelo melhor. Sim, porque as férias de cada ano têm de ser melhores que as anteriores. As deste ano serão vividas e as outras, por muito boas que terão sido, são memórias.

E de memórias muitas vezes se fazem as férias. A expetativa do que virá está com certeza toldada pelas memórias de experiências passadas.

 

Este ano encontrei-me na contingência de umas férias desfasadas do calendário da minha esposa. Quinze dias, só eu os miúdos portanto. Um miúdo e meio na verdade. O mais velho já tem a namorada, os festivais, a praia, o carro e sei lá mais o quê para preencher os seus dias de agosto. Por acordo dispenso-lhe assim a liberdade para empreender as suas “cenas” e passar apenas uma semana com o “cota”.

Nos primeiros sete dias, eu e o mais pequeno, resolvemos facilmente a equação. Praia, serra, mar, rio, piscina, aldeia e cidade. Os avós, as galinhas, os porquinhos-da-índia, os patos, a cadela. Deitar tarde, acordar tarde, os calções de banho, o protetor solar, os chinelos, a coluna de som, a música, as fotos, o calor insuportável e os dias de chuva que estragam tudo. Tudo acabado, tudo enrolado em (boas) memórias.

Nos seguintes sete dias (já agraciados com a presença do mais velho) decidi viajar. Mais para trás. Muito para trás e para o centro, na verdade.

Reservei quarto num hotel construído em 1859, localizado no Luso, mesmo na entrada da Mata do Bussaco. Locais cheios de história portanto. História comum e nacional até. Zona de história também, mas de história familiar. O meu avô nasceu por aqui perto. Avô que o mais velho conheceu mas que o mais novo não teve a mesma sorte. Herdou-lhe o nome, contudo. Justa homenagem ao meu maravilhoso avô. Confesso o meu receio por esta decisão de revisitar o antigo. Claro que os miúdos preferem as coisas novas. O high-tech. Os hotéis xpto vestidos de vidro, aço e madeiras. As grandes piscinas e salas de refeições. Aqui, nada disso. Pelo menos o acesso wifi não era mau...

 

Afinal correu bem. Resmungaram por fazer a mata a pé, mas gostaram. Torceram o nariz quando viram o hotel, mas gostaram. Mostraram-se se calhar surpresos quando lhes anunciei o meu plano para o último dia: em ar de passeio seguiríamos para a aldeia onde o bisavô nasceu. A mim já sabia o que me esperava no coração, na garganta, na face e nas memórias. Da parte dos miúdos não fazia ideia...

O que aconteceu quando entrámos naquela rua estreitinha que dá para o cemitério onde os bisavôs deles estão sepultados, guardo para nós. Mas posso dizer que existem viagens que não têm preço. São viagens que nos levam mesmo ao centro...

 

Rui Duarte

Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 07:30  Comentar

15.9.17

Girl-claudioscott (1).jpg

Foto: Girl - claudioscott

 

Algures no tempo, perguntaram-me qual a minha palavra portuguesa favorita. Esta poderia ter-se transformado numa daquelas perguntas pesadelo que fazem a nossa cabeça rodar tanto ao ponto desta parecer implodir, não fosse a minha resposta certeira. Saudade.

 

Porquê saudade? Perguntar-se-ão vocês.

Ora porque para além de ser uma palavra genuinamente portuguesa, expressa aquele que para mim é um dos mais belos sentires.

Estar saudoso de algo significa sobretudo, a meu ver, que se viveu ou vive algo de belo. Uma história, um acontecimento, uma vivência, um ser, um estar... que valeria a pena ver repetido ou que aguardamos para retomar do ponto em que de alguma forma ficou em pausa, como quando alguém que amamos parte para outros destinos.

Uma vez li que a saudade pertence a quem fica. Concordo. Quem vai parte em busca de algo, vai viver outras emoções das quais poderá vir a ter saudade. Enquanto isso será alvo de saudosismo, por parte de todos os que ficam nas suas rotinas a aguardar seu regresso.

Saudade é mais que o sentir falta de algo. É estar feliz por ter vivido, por ter estado, por ter conhecido, por ter amado...

 

Que a saudade viva em nós. Como marca da existência de momentos felizes. Da esperança de dias melhores, sorrisos futuros, amores vividos, viagens marcantes... Como prova d'alma que se encantou com a vida.

 

Iolanda Cortez

Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 07:30  Comentar

11.9.17

Psychology-Clayton.jpg

Foto: Psychology - Clayton

 

Nas minhas consultas reparei, ao longo dos anos, que muitos pacientes dizem sentir uma saudade sem fim de algo ou de alguém, sendo que essa saudade lhes retira qualquer possibilidade de serem felizes. Tenho reparado também que grande parte desses mesmos pacientes recusa a ideia de abandonar a saudade que sente. Estão apegados a ela como se fosse uma entidade. Sempre que se apresenta uma solução para abandonar a saudade e seguir em frente, lá vem um “mas”, um “não pode ser”, um “e se”.

Então, comecei a perceber que a saudade não está relacionada com o passado, como inicialmente considerei. Não é a constante recordação de um acontecimento ou pessoa do passado que espoleta a saudade, mas sim o que já não se vai mais viver com essa pessoa ou com essas condições. É o medo do vazio do futuro sem aquelas caraterísticas do passado que nos faz ficar cativos nessa emoção. É a hipótese não vivida, a expetativa criada que nos deixa assim, presos a um vazio do futuro, mascarado com o que aconteceu no passado.

 

Porém, há boas notícias: a saudade cura-se! Como? Sendo profundamente agradecido pelo que se viveu, pelo que se evoluiu com a experiência. Mas seguindo em frente, rumo a novas lembranças, a novas saudades.

 

Sara Almeida

Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 07:30  Comentar


Dili | Timor-Leste

Pesquisar
 
Destaque

 

Porque às vezes é bom falar.

Equipa

> Alexandra Vaz

> Ana Bessa Martins

> Cidália Carvalho

> Ermelinda Macedo

> Fernando Couto

> Jorge Saraiva

> José Azevedo

> Leticia Silva

> Maria João Enes

> Miriam Pacheco

> Rui Duarte

> Sandra Pinto

> Sara Silva

> Sónia Abrantes

> Teresa Teixeira

Janeiro 2018
D
S
T
Q
Q
S
S

1
2
3
4
5
6

7
8
9
10
11
13

14
16
17
18
19
20

21
22
23
24
25
26
27

28
29
30
31


Arquivo
Comentários recentes
Ola, boa tarde. o Mil Razões está em destaque no B...
OoopsFaltou dizer que a homepage dos Blogs do SAPO...
Olá,Este blog está em destaque na homepage dos Blo...
Parece que o Mil Razões quer mesmo estar em todos ...
O amor não resolve nada. O amor é uma coisa pessoa...
Presenças
Outras ligações
Música

Dizer que sim à vida - Carlos do Carmo:

 

Dizer que sim à vida - Luanda Cozetti: