8.10.10

 


Perdi muitos anos a tentar perceber o que é o amor... No seio familiar, aprendi que embora o amor possa ser fonte de momentos muito agradáveis, também é caracterizado por obrigação, agressão, instabilidade e insegurança. Ao contrário de muitas pessoas, não tive a sorte de nascer num lar saudável, rico em nutrientes emocionais. Embora existisse amor na minha vida, as pessoas que por mim nutriam esse sentimento raramente mo demonstravam, no entanto, eram rápidas a declarar a sua opinião crítica, quando o que estava em causa eram os meus erros.


Percebi cedo que o amor podia causar muita dor e que, por mais que me esforçasse, não iria conseguir controlar a dor que me era infligida por aqueles que deveriam nutrir amor por mim. O amor dos outros era, para mim, independente do que eu fazia ou do que eu dizia, pelo que representava, em conjunto com a dor, um grande sentimento de impotência.


Não satisfeita com os ensinamentos familiares e na tentativa de perceber o que é afinal o amor, essa entidade de que tanto falam as pessoas, comecei a prestar mais atenção a outras fontes de informação. Observei as histórias de amor com príncipes encantados, os filmes românticos na televisão, as músicas românticas na rádio. E olhei à minha volta para as pessoas, as organizações familiares, as relações de verdadeira amizade, os hábitos e os vícios dos outros.


 


Do conjunto das situações observadas, aprendi que o amor pode assumir uma multiplicidade de facetas: pode ser delicioso ou desagradável, pode ser controlador ou liberal, pode ser injusto ou compreensivo, pode ser prisão ou liberdade. E aprendi que o amor é como uma flor: pode ser regado, crescer e florescer, ou não ser regado, secar e morrer. Compreendi também que, em conjunto, é possível trabalhar o amor com vista ao seu pleno desenvolvimento e ao pleno desenvolvimentos das pessoas envolvidas. E percebi que o amor é um pouco como a história da galinha e do ovo: para amarmos, precisamos de sentir o amor dos outros e, para recebermos o amor dos outros temos que os nutrir e acariciar, ou seja, demonstrar o amor que sentirmos. Estamos perante um processo bidireccional que, com a quantidade necessária de dedicação, compreensão e esforço, com aprendizagem mútua e contínua, pode prosperar, tornar-nos mais fortes, mais inteligentes e mais sadios.


 


Ana Gomes


 

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Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 00:05  Comentar

De eu a 11 de Outubro de 2010 às 14:43
O amor não resolve nada. O amor é uma coisa pessoal, e alimenta-se do respeito mútuo. Mas isto não transcende o colectivo. Levamos já dois mil anos dizendo-nos isso de amar-nos uns aos outros. E serviu de alguma coisa? Poderíamos mudá-lo por respeitar-nos uns aos outros, para ver se assim tem mais eficácia. Porque o amor não é suficiente.
“Saramago, el pesimista utópico”, Turia, Teruel, nº 57, 2001

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