23.4.10

 


A palavra ritual, tal como está descrita no dicionário, vem da palavra rito que quer dizer, sucintamente, “ordem prescrita das cerimónias que se praticam numa religião” (in http://www.priberam.pt/DLPO/). Nesta linha de raciocínio, falar dos rituais da morte implicaria falar das celebrações levadas a cabo pelas diferentes religiões aquando da morte de alguém, como é o caso da “câmara ardente”, típica do catolicismo. Neste caso particular, a família “faz turnos” em redor do corpo, enquanto diferentes pessoas, mais ou menos próximas, vão fazendo fila para dar “os sentimentos” e oferecer flores ornamentais. O ambiente é pesado e silencioso e os olhares são de pena. A cerimónia dura o dia todo e o corpo é enterrado no dia seguinte.


 


Como não me identifico com este tipo de ritual desactualizado e penoso, e como considero que os rituais da morte vão muito além daquilo que são as celebrações religiosas logo após morte, vou abandonar a definição mais convencional.


Pensar em rituais da morte, na minha perspectiva, implica pensar em todas as celebrações/acontecimentos que mais directamente se associam à morte, quer ocorram antes, durante ou após a mesma, sejam desenvolvidos pela família, pelo próprio ou por amigos. E falar em morte implica ter em conta todas as suas formas: velhice, doença, acidente, suicídio, homicídio, etc.. Deste ponto de vista, há todo um leque de situações passíveis de serem incluídas na definição de rituais da morte.


A filha que vai todas as semanas à campa dos pais e dos sogros lavar a pedra mármore e ornamentá-la de flores, executa um ritual de morte. A viúva que veste preto anos a fio, usa as duas alianças e guarda os pertences mais significativos do marido perto da cama, executa um ritual de morte. A mãe que perdeu o filho e que, passados anos, mantém o quarto do menor intacto para manter a sua memória viva, também executa um ritual de morte. Os amigos que se reúnem para jantar no dia de aniversário do amigo falecido e relembram os momentos passados, também executam um ritual de morte.


E o doente cancerígeno, apenas com 2 meses de vida, sem hipótese de recuperação, que começa a decidir o destino dos seus bens, tenta realizar os últimos desejos e despede-se de todos os seus familiares. Ou o idoso, proprietário de um jazigo, que morre após meses na cama, porque desistiu lentamente de viver e cujo único ritual era pedir a Deus, todos os dias, que o levasse. Ou o suicida, que planeia com meses de antecedência a sua morte – a escolha do local, o método, as palavras finais num papel – celebrando-a pouco a pouco como uma conquista. Parece-me que todos estes comportamentos, cujo único motor da acção é a morte, devem ser considerados rituais de morte já que estão directamente relacionados com a mesma.


 


A morte faz parte da nossa vida. E todos nós executamos rituais de morte pois todos nós conhecemos alguém que morreu, pensamos na nossa morte e na morte daqueles que mais amamos. E os nossos rituais, tais como os rituais que descrevi, assentam fundamentalmente em um de dois conceitos opostos, o da aceitação e o da negação. Nesta linha de raciocínio, com qual dos conceitos te identificas quando lidas mais directamente com a morte?


 


Ana Gomes


 

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Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 00:05  Comentar

De Ana Gomes a 16 de Maio de 2010 às 18:45
Alex,

Mais uma coisinha, relativamente à tua última pergunta...

De facto, no contacto com a morte há mais para além da aceitação e da negação.

Mas estes são os pólos da nossa relação com a morte, pelo que sou da opinião que a maioria das pessoas está mais próxima ou de um, ou do outro.

O "meio termo", na minha opinião, será a indecisão, a confusão e a indefinição relativamente ao assunto.


De Ana Gomes a 16 de Maio de 2010 às 18:31
Olá Alex,

Desculpa, mas ainda não percebi a distinção que fazes entre rituais de escape e rituais doentios. Nem depois de ler o teu primeiro comentário, nem depois de ler este.
Na realidade e porque não percebi, acabei por não responder à tua pergunta inicial.

Se eu tiver apenas em conta as palavras "escape" e "doentio", parece-me que assentam os dois no pólo da negação.
A palavra "escape" remete para o fugir, o não enfrentar de algo. Daí que não me faça sentido que se inclua no pólo da aceitação.
Mas, como disse, não percebi bem onde querias chegar.

Relativamente à tua última questão, parece-me que a aceitação e a negação são mutuamente exclusivos, já que representam, a meu ver, conceitos opostos. Se eu nego, não aceito. E se aceito, não nego.

Beija!

De Alex a 13 de Maio de 2010 às 15:34
Olá Ana,
Desculpa discordar, mas o teu comentário ao meu comentário e, em concreto, à questão deixada por mim, responde, em concreto, à mesma.
Expondo um pouco do que acredito serem os RITUAIS DE ESCAPE, digo que estes assentam na ACEITAÇÃO, não da perda, mas da distância criada, e que a forma encontrada de comunicação, de certa forma, aproxima sentimentos e atenua o sentimento de ausência.
Os RITUAIS DOENTIOS assentam no complexo evoluir das sociedades e nos falsos valores e necessidades que nos são "quase" impostos, em detrimento de uma educação mais ambiental, natural, animal. Então, sem sentido nexo, as sociedades evoluem para ideais que se prendem mais com o ter do que com o ser. E aqui, no cerne da questão, o atrofio de raciocínios acontece inconscientemente, de diversas formas e em diversos sentidos. Logo, a NEGAÇÃO prende-se mais com a perda, com a falta de capacidade de desprendimento e com uma incompreensão angustiante.
Em jeito de provocação vou deixar outra questão;
Não existirá um meio termo entre a ACEITAÇÃO e a NEGAÇÃO?

BJ

De Ana Gomes a 9 de Maio de 2010 às 14:29
Na minha opinião, pensar a morte nas suas diferentes expressões (a própria ou daqueles que amamos), é uma tarefa maturacional que todos deveríamos levar a cabo durante a nossa existência. A realidade da morte deve estar presente em todos nós, a todo o momento.
E não devemos encarar isso como uma acção "masoquista". É antes uma forma de nos fazer dar valor ao que vamos construindo e às pessoas que nos rodeiam.
Tudo é efémero. Se tivermos consciência do inevitável que é a morte, damos mais valor ao que está à nossa volta, dizemos mais vezes o que sentimos pelos outros, aproveitamos cada segundo de convivência. Se optamos por crer na nossa infinitude (inexistente) e na infinitude dos que amamos (também inexistente), então é tudo garantido, não nos esforçamos, nem damos valor.
É bom relembrarmos a morte iminente dos que amamos (já que essa será a realidade) e agir positivamente de acordo com esse facto. A meu ver, não é ser "masoquista", é ser realista. É ter os pés assentes no chão.
Nesta sociedade, que cultiva valores de juventude, beleza e perfeição, julgamos que para viver não podemos estar a sempre a pensar na morte. A morte não tem lugar, não é incluída. O que leva a "rituais doentios" que para mim assentam no pólo da negação.
Não somos ensinados a pensar sobre a morte. Ainda assim, admira-me que não hajam mais pessoas a questionar aquilo que a sociedade nos incute desde tão cedo e tão vincadamente. Basta olhar para outras culturas e tradições para perceber há formas mais adaptadas do que a nossa de perspectivar a morte.

PS - Não percebi o que queres dizer com "rituais de escape". Em que medida distingues estes dos "rituais doentios"?

De Alex a 6 de Maio de 2010 às 13:32
Olá Ana,

Antes de mais a exposição da problemática está explicita e interessante, mesmo na tua posição parcial por não fomentar, nem mencionar qualquer outro tipo de ritual. Parece-me bem.
Quanto à questão levantada;
De ânimo leve responderia que aceito e não vivo com o drama da morte a mim directamente afecto.
A angústia só de pensar na morte de um ente querido leva-me à negação.
Dou por mim a pensar estupidamente n de vezes, aliás, demasiadas vezes em situações desse género (acidentes fatais, amputações, desgraças), e não se tratam de sonhos, desses não me lembro, trata-se mesmo de um "quase" ritual, que só pode ser masoquista.
Por isso respeito muito os rituais de morte, a dor que não é nossa.
Só de salientar que, do meu ponto de vista, existem os de escape e os doentios.
Serão estes os de ACEITAÇÃO e NEGAÇÃO?
Beijinho GRANDE

De Ana Gomes a 6 de Maio de 2010 às 11:03
Diariamente desvinculamos a morte daquilo que é a vida, razão pela qual associamos a ela a ideia de "fantasma"...
A morte é tão fantasma como o nascimento, a maturação, a separação, a alegria ou o sofrimento. Todos estes processos são naturais e fazem parte de um contínuo que culminará na morte.
Mas a vida continua e continuará, independentemente das inúmeras mortes que vão ocorrendo.
A morte só é um "fantasma" quando a encaramos de uma perspectiva individual: a nossa própria morte. E as crianças que morrem diariamente à fome? E as vítimas de sida e de cancro? E os civis que morrem nas querras?
É fácil desvincular a morte dos outros, mas não largamos a "fantasma" da nossa própria morte.
A nossa morte é tão importante como a das pessoas que morrem todos os dias.
Somos uma pequenina (muito pequenina mesmo!) parte da existência, do todo que é a vida. A nossa vida não é assim tão importante, nem significativa.
Depois da nossa morte, a vida (independentemente da sua forma ou feitio) continuará a desbravar território, a evoluir e a conquistar o planeta e o universo.
A nossa própria morte é incontornável, indiscutível, inquestionável. Mas podemos celebrar com orgulho a continuidade da vida.

De Conceição a 24 de Abril de 2010 às 19:42
Todos sabemos que a morte faz parte da vida... Claro que para vivermos não podemos estar a pensar nela, ou então não viveríamos presos ao fantasma da mesma.
Quanto aos rituais, acho que, cada um tem o seu próprio ritual. Dependendo das situações pode haver mais facilmente a aceitação ou não. Cada caso é um caso. Cada história é uma história, e, cada pessoa é uma pessoa.

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