27.4.10

 


- “Deus morreu, Marx também e eu mesmo já não me sinto lá grande coisa.” Não me parece interessante continuar a falar de um tema que se esgota em si mesmo. Deixemos as especulações sobre a morte para os fracos e para os devaneios dos românticos decadentes.  


Álvaro procurava assim pôr termo a uma conversa na qual não via qualquer utilidade. Considerava que o tempo gasto a falar sobre a morte era tempo roubado à vida. Usava a frase de Maio de 68 como um semáforo vermelho e normalmente intimidava o interlocutor.


- Pois para mim, esse é o “tema”. - enfatizou Luís - Aquele que dá sentido à vida ou, se quiseres, a morte como princípio da verdadeira vida. Se não acreditasse nessa vida para além da morte, num propósito, num desígnio, restar-me-ia o vazio, o nada a que remetem as tuas palavras. Reduzir o sentido da vida à nossa passagem terrena, seria demasiado pouco. O Deus de que falo, ilumina a minha vida.


Álvaro pensou: “Olá, hoje temos luta, vou ter de me aplicar”.


- Não remeti para o nada. Se o nada pudesse existir, já seria alguma coisa. Remeto para o fim das nossas vidas terrenas e para a recusa de uma outra vida nascida da imaginação. O argumento que utilizas, baseado no conforto e em Pascal, não me convence. Não se acredita por decisão. E se tal fosse possível, não seria aceite pelo teu deus, que certamente preferiria o céptico verdadeiro ao utilitarismo do crente.


- Mas então, em que é que tu acreditas, se recusas Deus e o nada?


- Acredito que fazemos parte do cosmos. Acredito que as partículas de que me componho surgirão mais tarde fazendo parte de outros conjuntos. Posso imaginar-me em parte numa pedra, em parte numa árvore e ainda na unha de um orangotango e por aí fora. Mas, apesar de tudo, prefiro ver-me a integrar uma flor, a fazer parte de um lago, de uma estrela errante e, como ainda sobram bastantes partes, a completar o olhar de uma criança que, junto de um lago, contempla o firmamento.


- Um romântico, afinal! – disparou Marta com malícia.


- Assumido, mas não decadente…


- Nada do que conhecemos tem o aspecto de ter sido concebido, a menos que o tenha sido. Esta obediência a um desígnio só nos pode conduzir a Deus – apressou-se Luís, receando que os remoques desviassem a atenção do tema.


- Não devias ter parado em Tomás de Aquino. Devias ler Darwin – replicou triunfante Álvaro, que gostava de exibir os seus conhecimentos e descobrir os nomes dos autores, em especial quando a citação não era explícita. Era uma outra forma de intimidação, mais sofisticada.


- À medida que a ciência avança, aumenta o reconhecimento de que sabemos menos do que pensávamos saber antes.


- Sabemos cada vez menos, sobre cada vez mais. E se existir um deus, mas não existir vida depois da morte? E se houver vida depois da morte mas deus não existir?


Quanto mais receamos a morte, mais difícil ela se nos afigura, já que se alimenta dos nossos medos, tornando a morte mais dolorosa do que a dos animais, que nada sabem. Do que realmente temos medo não é da morte, mas sim da vida que acaba. Mas como seria insuportável se fossemos condenados à vida eterna na terra! Vivamos a vida como uma oportunidade que não se repete. Encaremos a morte como uma dádiva para que outros possam viver. Aceitemos a morte como um sono. Um sono eterno.


- Recusas não só Deus, como toda a metafísica…


Álvaro apercebeu-se que a conversa caminhava para o fim e não resistiu:


- “Come chocolates, pequena; come chocolates! Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates”.


- Fica com o teu homónimo que eu fico com a fé no meu Deus, que é mais doce que o chocolate e mais belo que o teu lago.


 


José Quelhas Lima


 

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Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 00:05  Comentar

De Cidália Carvalho a 3 de Maio de 2010 às 20:42
Conceição,
Lamento sinceramente as suas perdas.
Naturalmente, e, porque a força da vida nos impele a prosseguirmos, cada um arranja forma de o conseguir. A Conceição tenta não pensar, é um método tão válido como outro qualquer, se isso a faz sentir-se menos mal.
Fique bem!

De Conceição a 3 de Maio de 2010 às 17:47
Cidália,
Já pensei assim até dois acontecimentos que marcaram muito a minha vida. Morte de um dos meus gémeos e morte do meu pai. A única maneira que arranjei, para sobreviver, foi a de não pensar.
Sei que a morte faz parte da vida, e que uma não existe sem a outra mas, para quê sofrer por algo que é inevitável?
Por isso tento não pensar, não quero pensar....
Desculpe o desabafo

De Cidália Carvalho a 2 de Maio de 2010 às 21:54
Grande Alvaro de Campos que ainda hoje inspira grande textos como este...

De Cidália Carvalho a 2 de Maio de 2010 às 21:48
Conceição,
Claro que ninguém pode viver feliz sentindo uma espada em cima da cabeça, quero dizer, não podemos viver a vida a pensar na morte, mas não falar dela não é estarmos desatentos e impreparados para quando tivermos que enfrentar o momento? A morte não pode ser tabú é tão sério e importante como a vida, uma coisa não existem sem a outra.

De Cidália Carvalho a 2 de Maio de 2010 às 21:38
Ninguém,
Penso que quando diz serem escolhas não está a referir-se à morte, está?
Sabemos que a morte é uma inevitabilidade, não é uma escolha, a forma como morremos é que poderá ser uma escolha, mas não será mais importante, e por vezes corajoso, optar por uma certa forma de vida? A forma como nos colocamos na vida e as opções que tomamos não são actos da nossa liberdade?

De Conceição a 29 de Abril de 2010 às 11:15
Peço desculpa mas, acho que a morte não é o que mais interessa. É algo a que ninguém pode fugir, é verdade, mas não será por isso que temos que pensar constantemente nela. Devemos sim é pensar no momento presente. No que temos , no que podemos ter ou fazer.Conclusão, aproveitar bem a nossa tão curta e fugaz passagem por esta vida.

De ninguém a 27 de Abril de 2010 às 13:50
a morte é o que mais interessa-
quem não reflecte sobre o único evento certo ou é louco ou vive em fuga.
morrer por suas pp mãos é o acto mais livre que um ser humano pode ter...
"não me venham com conclusões. a única conclusão é morrer!"

são escolhas !!!

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