7.7.17

Girl-TaniaVanDenBerghen.jpg

Foto: Girl – Tania Van den Berghen

 

Chegámos cedo para arranjar lugar de estacionamento e lugares sentados. Não fomos os únicos previdentes pois, muito antes da hora marcada, já reinava grande confusão. O portão de ferro, aberto de par em par, dava acesso a uma Alameda de plátanos tão podados e desramados que não se faziam notar, nem tinham qualquer serventia a quem quisesse usufruir da frescura de uma sombra.

O clique das máquinas fotográficas já se fazia ouvir. Junto aos buxos e às azáleas que ainda resistiam e se recusavam a dar a vez aos agapantos, ou a outro arbusto que compusesse uma fotografia, raparigas de vestidos justos a mostrarem corpos balofos e descuidados, punham-se em pose curvilínea, ou muito direitas com uma perna fletida ligeiramente à frente da outra. Mãos na cintura, costas voltadas e cabeça a pender para trás com olhar de felina provocadora, pediam para serem imortalizadas numa fotografia. Trocavam de perna e fletiam a outra. Passavam os dedos nos cabelos contrariando o movimento natural, desgrenhadas e selvagens, estavam prontas para mais um registo e ouvia-se mais um clique.

 

O toque do sino deu início à cerimónia.

Entrámos na igreja e já o padre se dirigia às crianças vestidas de branco com os cabelos a descerem em cachos acentuados com pérolas e laçarotes, carinhas de anjo que ocupavam as primeiras filas com a solenidade que o momento pedia.

Atrás de mim um jovem conversava com o pai – o grau de parentesco é da minha imaginação. Manifestava-se indignado por alguém que eu não ouvi o nome, não estar ali com eles. E ganhava créditos aos olhos do progenitor lembrando-lhe que quase não dormiu porque a festa durou até tarde, mas a ocasião exigia que todos estivessem presentes. Os telemóveis tocavam e as pessoas não se acanhavam de os atender e de darem informações sobre a sua localização dentro da igreja para que, quem ligava, se juntasse a elas.

A cerimónia era longa e os mais pequenos começavam a dar sinais de impaciência, gritavam e pediam colo, ou pediam chão os que estavam ao colo. Havia muito movimento na entrada da igreja. As pessoas saiam e entravam, pediam licença, um jeitinho ou um empurrão disfarçado com um sorriso, mas não paravam. Não sei as razões que as levavam a esse perpétuo movimento, mas podia jurar que entrando e saindo se mostravam. Mostravam modelitos coloridos e floridos, transparências, carnes com pouco tecido e panos a arrastar e a exigir agilidade para não tropeçar nos tacões de agulha. Mostravam tranças apertadas ou lassas, madeixas soltas a dar um ar de liberdade e naturalidade aos cabelos que só assim se mantinham por estarem espargidos de laca. Lá à frente, o padre continuava a esforçar-se para manter os catequizados interessados e incutir nos adultos a responsabilidade de ajudar aquelas crianças a viverem sem perder de vista os preceitos católicos.

Finda a cerimónia, nova sessão de fotografias, agora com os catequizados a quem eram entregues pequenas lembranças para imortalizar um dia assim tão importante.

Era a hora de continuar a celebrar, mas num almoço tão abastado que o futuro nunca apague.

 

O dia findou e eu perguntei-me quantos dos que ali estiveram saberiam o que de verdade aconteceu. O investimento pessoal e a felicidade que os rostos irradiavam davam sentido à cerimónia, o sentido de cada um. E chegou a altura de dizer, para não ficar mal no retrato, que cada um dá o sentido que quer e vive as coisas conforme bem entende. As razões de cada um não são aqui discutíveis e também não serão as minhas que vejo na primeira comunhão a alegria interiorizada da primeira eucaristia e a reunião em e com Cristo Nosso Senhor.

Menos que isto, para mim é vaidade, futilidade, pesadelo.

 

Cidália Carvalho

Link deste ArtigoPor Mil Razões..., às 07:30  Comentar

Dili | Timor-Leste

Pesquisar
 
Destaque

 

Porque às vezes é bom falar.

Equipa

Alexandra Vaz

Ana Martins

Cidália Carvalho

Ermelinda Macedo

Fernando Couto

Jorge Saraiva

José Azevedo

Landa Cortez

Leticia Silva

Rui Duarte

Sandra Pinto

Sandra Sousa

Sara Almeida

Sara Silva

Sónia Abrantes

Tayhta Visinho

Teresa Teixeira

Julho 2017
D
S
T
Q
Q
S
S

1

2
3
4
5
6
7
8

9
11
13
15

16
18
19
20
22

23
25
27
29

30


Arquivo
Comentários recentes
Ola, boa tarde. o Mil Razões está em destaque no B...
OoopsFaltou dizer que a homepage dos Blogs do SAPO...
Olá,Este blog está em destaque na homepage dos Blo...
Parece que o Mil Razões quer mesmo estar em todos ...
O amor não resolve nada. O amor é uma coisa pessoa...
Presenças
Outras ligações
Música

Dizer que sim à vida - Carlos do Carmo:

 

Dizer que sim à vida - Luanda Cozetti: