23.2.18

 

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Foto: Attractive - Pexels

 

“Nunca mais amarei quem não possa viver

Sempre,

Porque eu amei como se fossem eternos

a luz, a glória e o brilho do teu ser.

Amei-te em verdade e transparência

e nem sequer me resta a tua ausência.

És um rosto de nojo e negação.

E eu fecho os olhos para não te ver.

Nunca mais servirei senhor que possa morrer.”

Sophia de Mello Breyner

 

Espero que estejas bem. Sei que da última vez que te vi estavas um pouco fugidia e distante, parecia que me evitavas ou que não te sentias bem ao pé de mim. Achei-te com o cabelo em desalinho, olhar a vagar no fragor do horizonte, por dentro.

Acho que me disseste que tinhas ficado desiludida com alguém importante. Que essa falta estava marcada em ti, como se falássemos do recorte a tracejado das vítimas de séries de crime. Devia ser mesmo importante esse alguém, nunca mais disseste palavra sobre ele.

As marcas do que já passou ainda doem? Como passas os teus dias?

Ajuda partilhar com quem escute as lágrimas do sentimento ressequido e os gritos, sem interromper. Acho que a dor não se compraz com anúncios de dez em dez minutos, ainda que tenhamos de esperar, por vezes, por quem nos ouve com muito colo.

E a zanga Maria, o que é feito dela? Sei da tristeza que fica um tempo, ali sem nada, a hipnotizar-te. A rejeição também mas e a zanga? Ah sei, é fazer exercício físico, focar no trabalho e carregar no acelerador do carro. Mas sabes Maria, se vires da zanga manda-lhe um beijinho, gosto de a ver, mesmo quando ela é incómoda porque ela pá, ela sabe de coisas que nem eu nem tu desconfiamos.

Bem, esta carta já vai confusa mas era para te dizer que se precisares de alguma coisa diz, nem que seja ir tomar café ou ir para a fila das finanças.

Queria dizer-te que és importante para mim. Para tudo o resto, respiremos.

 

Maria João Enes

 

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19.2.18

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Foto: Homeless - Leroy Skalstad

 

Do momento de luz ao expoente da criação, tornamo-nos corpo, mas também alma. Agregamos experiências, lições, erros, histórias, gostos e desagrados, na edificação de um “Eu” distinto. E é nessa passagem do tempo que alicerçamos as nossas raízes. Prendemo-nos ao meio que nos envolve, ao conforto construído, ao que e a quem nos faz bem.

Se as fundações se abalam, é o ser inteiro que ampara o golpe, carregando as marcas e as feridas pelo longo e turbulento caminho que se estenderá.

Assim é o desígnio dos espíritos jovens abandonados pela sorte. Dos que crescem nas ruas, sem mão que afague, que proteja. Sem poiso que lhes garanta a segurança do amanhã, porque o próprio presente já é uma incógnita. Será que virá? Será que a vida persistirá?

A inocência do sorriso e da crença é-lhes roubada à partida, sem possibilidade de resgate de uma infância sumida. Os ruídos beligerantes atravessam ritmadamente a atmosfera e é no vazio propiciado pelo silêncio que se expressam os clamores sofridos. Os que ecoam num cântico aflitivo e os que são abafados pela dormência de um ser que já não sente, um ser que já não quer sentir.

Dos gritos às barbáries, perderam-se nas debilidades do ser humano. Desvaneceu o seu encanto, a esperança, a alegria… Miragens de uma vida alternativa, de uma outra realidade que não a vigente.

 

São órfãos da humanidade, o produto das massas de gente oca que os abandonou em terras impronunciáveis, submergíveis face às superficialidades da contemporaneidade.

Não os esqueçamos. Não os abandonemos. Pela memória e ação se fará a diferença quanto aos que serão o nosso futuro, enquanto (se) sucede o agora. E aí seremos todos membros da família humana.

 

Sara Silva

 

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16.2.18

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Foto: Woman - 5776588

 

Hoje acordei e, antes mesmo de abrir os olhos, pensei que seria um bom dia pois a noite foi calma cá em casa, com sonos retemperadores e descansados.

Olho-me ao espelho, já com a cara lavada com água fria e vejo que tudo está bem. Consigo escrever um e-mail de trabalho ainda a tomar o pequeno-almoço, adivinhando um dia produtivo.

De repente, cruzo olhares com o depois e a ideia de que tudo está bom sai a correr. Vejo-a fugir e fico em pânico. Começo a ficar mais nervosa, cada vez mais e mais nervosa e eis que tudo acontece. Tudo à minha volta é um caos, gritam comigo e tento não gritar, mas já vou perguntando “Porquê?”. Por que razão não há um dia em que a ideia de que será um bom dia não me abandona durante esse mesmo dia? Então, tudo acontece...

 

Se antes estava com boas energias, essas desaparecem e o meu pânico é maior pois convenço-me que nem sequer tinha direito de as ter tido em algum momento. Se conseguia suportar os gritos dos outros, esses mesmos gritos abandonam os seus corpos iniciais e passam todos para mim, sendo invadida por ataques de histeria louca, dos quais tenho consciência e abomino. Abomino-me a mim...

Se antes olhei para o espelho e tudo era bom, esse mesmo espelho mostra-me agora uma cara vermelha da própria raiva de existir, olhos a pedir para nunca mais serem vistos abertos por ninguém, lágrimas a pedir perdão por existir.

A alma quer sair do corpo, mas o racional não deixa. Estou presa em mim mesma, nesta minha neura, nesta minha existência medíocre. A pessoa que sou abandona-me e deixa-me à deriva com esta loucura.

Já consegui deixar todos à minha volta de olhos arregalados, mas que se dane! Sofram as consequências por conseguirem deixar-me assim.

Mas eu gosto tanto deles... Eu que já cá não estou. Eu que fui expulsa do meu próprio corpo para dar lugar à insanidade. Sinto ódio, abandono o amor, aquele que tanto acredito e desejo... Não é opção, mas é uma realidade. Uma estúpida realidade que só a mim diz respeito.

 

Sónia Abrantes

 

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12.2.18

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Foto: Woman - Анастасия Гепп

 

O estrondo de um motor atraiu-lhe o olhar através da janela, instintivamente. Viu um carro que passava na rua lateral ao liceu. Tudo estava bem.

Quando Luís fez o olhar regressar ao interior da sala, a porta tinha sido aberta por uma rapariga que entrava, serenamente, com determinação educada. Todos olharam para ela; não podiam deixar de olhar, atraídos por ela, pelos cabelos castanhos a tocarem os ombros, pela pele clara mas precisamente bronzeada, pela beleza do rosto, pelos olhos magnéticos, pela elegância, pela suavidade dos gestos, pelo sorriso cativante, pelo vestido de verão a terminar pelo meio da coxa. O professor interrompeu o silêncio: “Por favor entre e sente-se, se ainda encontrar uma mesa e uma cadeira livres”. Reposto o silêncio, os olhares continuaram até ao fundo da sala, seguindo aquele corpo que flutuava harmonioso. Pousou na última cadeira, olhou o professor e mostrou de novo o sorriso, doce, que agora a todos dizia que estava tudo bem, que a aula podia continuar. Luís sentiu-se preso àquela rapariga tão bela como nunca imaginara possível, senhora de uma luz que criava todas as cores, que tudo harmonizava.

 

Naqueles dias a turma tinha crescido até ao limite do espaço da sala, com rapazes e raparigas regressados de uma África agora independente que os rejeitava, ou que eles rejeitavam. Todos tinham lá nascido e crescido, numa natureza diferente, numa cultura diferente, e por isso sentiam-se peixes fora de água, rejeitados, escorraçados, estigmatizados, a tentarem perceber onde estavam, com quem estavam, a tentarem aprender novos hábitos e a criar laços, referências, amizades. Pela forma como ela chegou, pelo seu jeito, só podia ser um deles – uma retornada.

 

Tornou-se muito longo e vazio o tempo até ao intervalo. Com o toque saíram da sala e, como sempre, caminharam até ao salão polivalente. Luís, sempre tímido, sempre reservado, sobretudo com as raparigas, não tirou os olhos dela. Sem entender como, atreveu-se a abordá-la quando todos a olhavam à distância, disfarçando mal a surpresa, o espanto, a fixação. Aproximou-se. Ao perto ainda era mais bela; era muito diferente de todas as outras raparigas. Atreveu-se e disse-lhe que se chamava Luís, que vinham da mesma sala. Ela respondeu-lhe com um sorriso terno, meigo, carinhoso, irresistível, e continuou: “Chamo-me Ângela. Cheguei ontem de Lourenço Marques e estou aqui hoje, o meu primeiro dia neste liceu. Nunca tinha vindo a Portugal continental”.

Luís não entendia a razão, mas com a Ângela sentia-se à vontade, completamente relaxado, sem medo de ser como era, sem medo de falar. Conversaram todo o intervalo grande e regressaram juntos à sala.

Quando as aulas terminaram - terminavam pela hora de almoço, Luís acompanhou Ângela a casa. Ela, o irmão mais novo e os pais, estavam a viver com os avós que acabara de conhecer. Ficaram a conversar mais um pouco junto ao portão da avó. E depois separam-se até à manhã seguinte quando, bem cedo, Luís chegou ao portão para acompanhar Ângela até ao liceu. O mundo estava todo coberto de cores vivas, de beleza, o ar cheirava bem e tudo era harmonia.

 

E foi assim durante um mês. Ângela e Luís, Luís e Ângela, sempre juntos, por todo o lado. Nunca ele se sentira assim, tão bem, tão sereno, tão seguro, apaixonado. Adorava tudo em Ângela – a imagem, a voz, o cheiro, a serenidade, o sorriso, o jeito, a beleza. Durante aquele tempo experimentou algo que nunca imaginara ser possível – quando caminhavam pela rua, todos os homens olhavam surpreendidos e invejosos. E sim, era ele que ali estava, ao lado de Ângela, era a ele que eles invejavam.

 

E uma sexta-feira, quando regressavam a casa, Ângela disse a Luís que era o último dia em que estariam juntos. Na segunda-feira viajaria de volta a Lourenço Marques, perdão – a Maputo, o pai já tinha tratado de tudo e Moçambique era o país deles, queriam voltar e lá continuar a viver. Luís não conseguiu escolher uma palavra das tantas que queria dizer. Não queria o seu mundo sem Ângela. Queria dizer-lhe o quanto ela era bela, o quanto estava apaixonado, o quanto a desejava, o quanto precisava dela. Mas nada conseguiu dizer.

Não voltou a vê-la, nada soube dela. Regressaram a timidez e as dificuldades com as raparigas. O mundo perdeu luz, cor e harmonia.

 

Alguns anos depois tornou-se adulto e foi mitigando a timidez. Encontrou outras mulheres, encontrou o seu amor. Mas a imagem adolescente da Ângela, a serenidade, a beleza, o amor, ficou para sempre dentro dele, despertando de quando em vez apenas para dizer que está lá, para não ser esquecida, para o encher de ternura.

 

Fernando Couto

 

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8.2.18

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Foto: Man - Silvia & Frank

 

No momento em que os seus olhos, escondidos nos óculos “fundo de garrafa”, se cruzaram com o verde dos olhos dele, ela sorriu e corou.

Quando, dias depois, entraram no mesmo elevador, cada um soube onde poderia encontrar o outro. Mas não se procuraram. A vida, sozinha, faria com que os seus caminhos coincidissem de novo.

 

Os olhos dele procuraram mais vezes o sorriso dela, naquela multidão que se atropelava, a cada manhã, no percurso até ao trabalho. O primeiro “Olá!” mostrou que os olhos verde-água tinham voz de Tritão. E o convite para um café fê-la tremer – primeiro por dentro, e depois nas mãos.

No seu coração de menina, sempre sonhou com um homem assim: loiro e de olhos claros, como nos filmes e nas histórias de encantar. Sempre idealizou um príncipe a entrar no seu castelo. E estava a chegar o momento em que ele se tornava real.

 

No dia e hora combinados, ali estavam, cada um com as suas motivações e expectativas. Ela, de coração num trampolim e bochechas que só podiam sorrir. Ele nos seus olhos verdes, de conquistar qualquer mulher.

Ela que (aos olhos dele) de bonito tinha apenas o nome – Maria – fez cair por terra, num piscar de olhos, a aposta que o levara àquele café.

Ele estava agora rendido à voz doce de Maria. Hipnotizado pelo canto de sereia do relato das suas aventuras, em viagens pelo mundo fora.

Só que ela, mais do que viajar por países, tinha feito muitos percursos interiores, conhecia bem o seu coração… e percebeu, no primeiro momento, que o trampolim se deteve, ao suspeitar a aproximação de um homem vazio.

 

Foi a primeira vez que uns olhos bonitos levaram os dela a tomar café. Foi a primeira vez que os olhos dele se deixaram cativar por um brilho que não estava visível a olho nu.

 

Maria abriu um precedente na vida destes olhos, que viram que há muito mais beleza do que aquela que eles podiam alcançar.

O seu sonho de menina morreu naquele dia. Mas fez nascer a certeza de que, o azul celeste do seu coração, não seria nublado por uma qualquer cor de olhos bonitos.

 

HTR

 

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5.2.18

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Foto: Smile - Jessica

 

Beleza. Chega-nos pelo ar. Um som, uma imagem, um pormenor. A covinha do teu sorriso quando me vês chegar. E assim te chegas a mim. Passas a ser parte minha porque, de algum modo, te toquei, mesmo que nem um dedo tenha mexido. Os meus olhos iluminam-se quando te vejo. Incendeias a minha alma. Amor lindo. A melhor escolha da minha vida. Para sempre.

Há pessoas que nascem para isso: ajudarem-nos, apoiarem-nos, crescerem connosco e amarem-nos incondicionalmente. Beleza rara. Serem humanos e tocarem-nos a alma. Até mesmo aquilo que nunca ousamos, ou sabíamos mudar. O nosso céu particular.

 

Quando penso em ti e fecho os olhos, vejo sempre um sol brilhante num céu imensamente azul e branco, e muitas flores de todas as cores. Sorrio. A vida dá tantas voltas.

Eu agradeço-lhe por isso. Às vezes o céu é bem cinzento e escuro, mas quando olhamos em volta e vemos a normalidade da vida, a rotina do dia-a-dia, as árvores sempre prontas a serem admiradas, o mar sempre recetivo a um mergulho, a música à espera de ser ouvida, o corpo pronto a ser sentido e vivido. E a gente esquece o que passou.

 

Miriam Pacheco

 

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2.2.18

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Foto: Portrait - Subham Shome

 

Andei dias a fio a pensar como iria abordar o tema proposto. Nunca gostei de pensar e falar em beleza, ou no belo, apesar de conseguir, evidentemente, reconhecer e categorizar o que, para mim, é belo. Em certa medida, acho o tema tão ambíguo, que cai por terra qualquer validade pretensamente conclusiva. E eu tenho tendência para chegar a conclusões.

Pensei na fotografia, que capta o belo. Na arte, que cria o belo. Na música, que eleva o belo. No amor, que se quer belo. E repudiei a ideia de pensar sobre o tema quando me lembrei das pessoas. Quão falsa relação pode ser a junção dessas duas palavras: beleza e pessoas.

A beleza está repleta de lugares comuns, tendências e manipulações. Invade de forma direta ou insidiosa o nosso pensar, o nosso escolher e o nosso comportamento. É politicamente correta, tornando-se assim, em confidências, rotundamente falsa. Os seus padrões (atuais) incomodam-me, mas, no entanto, vaidosamente arranjo-me de manhã e frequento o ginásio de tarde. Sim, somos maioritariamente hipócritas no que toca ao tema. A verdadeira beleza vem de dentro, dizem-nos. Mas o que sentiríamos nós se tivéssemos filhos indiscutivelmente feios?

Será que a beleza está nos olhos de quem a vê? Talvez. Acredito, contudo, que na forma como a sociedade evoluiu, cada vez mais vemos todos a mesma coisa. Estamos a ficar cegos para a beleza da fealdade...

 

Rui Duarte

 

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29.1.18

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Foto: Plane - ionutscripcaru

 

Beleza é um conceito, dizem. E que está apenas nos olhos de quem vê. Pode ser. Mas depois há aqueles momentos em que o que vemos nos esgota a capacidade de olhar, e nos obriga à sujeição de todos os sentidos e à reverência a coisas inexplicáveis: é aí que nasce a Poesia.

 

Cheguei hoje de uma curta viagem para fora do meu país, Portugal. Anoitecia quando o deixei, há duas semanas, num dia de céu limpo. Virei a norte, voando, e a linha de fogo que demarcava o horizonte líquido era de uma nitidez afiada e longa, que me cortava a respiração. Subjetividade? Sim, talvez – a minha pele é, confesso, extremamente vulnerável a golpes de luz, e a minha respiração a cortes de espanto, quase susto. Nem pensei em beleza, ou qualquer outro adjetivo – apenas vi. Juro que vi.

Depois, o céu cresceu, debruado a lume esmaecendo, e a terra foi ficando preciosa, lá no fundo. Sei lá, ou talvez fossem os meus olhos, que já não olhavam, apenas me enriqueciam de filigrana delicada e faiscante – sei lá, ou talvez fossem as luzes da cidade a iludir-me... Talvez. Mas era belo! Belo, o trabalho de ourives, em arabescos, caprichos, flores, corações estilizados. Teias de fios dourados, desenhando joias espalhadas no veludo negro das povoações namoradas do mar. E juro que não ficou tudo pelos olhos, por isso, comecei a duvidar, desde então, nessa máxima de que “a beleza está nos olhos de quem vê”.

 

Como já disse, voltei hoje a Portugal, vinda de norte, pelo ar. Era de dia. E não sei se foi saudade, se foi poema – só sei que, descendo, a minha terra se me revelou, outra vez, de uma beleza que me abanou por dentro... Deve ter chovido, porque os prados, ponteados de casas e bordejados por pequenas manchas de árvores, eram de um verde vivo e liso. Deve ter chovido, porque os meus olhos se humedeceram, deixaram, outra vez, de saber olhar, e puderam sentir a recendência das ervas recém-cortadas, o cheiro dos pinheiros mansos, o conforto sensitivo de uma bela manta de retalhos, carinhosamente criada por mãos que sabem da beleza, sem saber que o sabem. E juro que, desta vez, senti por dentro que “a beleza está na alma de quem ama”. Com poesia ou com saudade. Ou com ambas.

 

Teresa Teixeira

 

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26.1.18

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Foto: Elderly - d4lma

 

A Rua das Camélias é a minha rua favorita da cidade. Tem um lindo nome e, só por este facto, seria capaz de a adorar mas, na verdade, não foi por esta razão que me enamorei dela: aqui vivem os protagonistas da mais bela história de amor que habita na minha memória. Há mais de quatro décadas que tive o privilégio de conhecer o Sr. Artur e a D.ª Aurora, duas pessoas adoráveis que me enchem a alma. Na altura em que eu era gaiata, a D.ª Aurora era a melhor modista da cidade. Vinha gente de todo o lado, até gente das revistas, da política e da banca, procurar os serviços das suas mãos abençoadas. Contavam as minhas tias que, décadas antes de eu nascer, já as mulheres se sentiam rainhas vestidas por aquela doce senhora de olhos muito azuis, sorriso sereno e pele de porcelana. O Sr. Artur era joalheiro, arte herdada do pai e do avô, e mantinha uma rotina de trabalho que lhe permitia esperar a sua Aurora, ao final da jornada, sem falhar um dia que fosse. Quando a D.ª Aurora fechava o atelier, já o Sr. Artur a mirava com um sorriso de orelha a orelha, como se a visse, sempre, pela primeira vez. Foram muitas as vezes em que estive sentada no banco do jardim, do outro lado da rua, a apreciar esta cena, invadida por sentimentos paradoxais: por um lado, fascinada pelo fenómeno de uma história de amor que recomeçava a cada dia, por outro lado, incapaz de perceber que a disfuncionalidade da minha família não me permitia, ainda, entender aquela entrega. Na realidade demorei muito tempo a compreender que aquilo é que era, realmente, amor. E que, nesse espaço sagrado, não podiam viver a dor, o medo, a raiva, a tristeza e a angústia (sentimentos e emoções que, no quotidiano da minha família, significavam afeto, carinho e preocupação), subjugados em mim pelos sorrisos, pela cumplicidade daquele casal, pela intensidade dos seus abraços. O Sr. Artur e a D.ª Aurora eram, aos meus olhos, as pessoas mais poderosas do universo: tinham o dom de fazer parar o tempo e de me inundar dos melhores sentimentos do mundo.

 

Um belo dia, a sair do atelier, onde insistia em trabalhar diariamente apesar da idade avançada, a D.ª Aurora deu uma aparatosa queda, mais rápida do que o Sr. Artur conseguiu pestanejar. Estendida ao comprido rebentou num pranto convulsivo, enquanto balbuciava que não tinha partido nada, a não ser o orgulho, e que a deixassem ficar ali até a vergonha a consumir. As pessoas que passavam iam parando, incertas sobre se deviam intervir ou não, quando, subitamente, o Sr. Artur se deixou cair no chão numa acrobacia digna do “Cirque du Soleil” e rebolou até à D.ª Aurora, sem proferir uma só palavra. Esta, incrédula, tinha esquecido as lágrimas e a vergonha e observava aquele homem, caído a seu lado, cujo ombro encostado ao seu a fazia sentir em casa. Foi ele quem, gentilmente, quebrou o silêncio:

- Queres ficar aqui estendida, meu amor, muito bem, ficamos. Já sabes que onde estiveres é onde eu estou. Só espero que não chova… e olha, Aurora, minha amada, lembra-te que já não vamos para novos… se calhar, daqui a vinte anos, experimenta encostar-te a um muro ou a uma árvore, estás a ver a ideia? Estas sestas no passeio, no meio do povo a passar, só porque sim, são capazes de nos matar, Aurora. Mas hoje, meu amor, estamos aqui. Dá cá a mão, isso, aperta. Vês? Está tudo bem. Quer dizer, se não partiste mesmo nada… Se partiste, Aurora, pelo amor de Deus, diz-me, meu amor, que temos de correr já para o hospital! Correr… rastejar! Assim que eu conseguir virar esta carapaça ao contrário…

Depois disto, a D.ª Aurora agitou-se num riso que a sacudiu inteira e o Sr. Artur permaneceu ao seu lado, fascinado com cada gargalhada que lhe inundava os sentidos. Lentamente, foram-se elevando e quando estavam, finalmente em pé, frente a frente, ele tomou-lhe a face entre as mãos e beijou-a ternamente. Naquele momento mágico todas as preocupações da D.ª Aurora se desvaneceram. Pude ver a tensão abandoná-la e o seu corpo sucumbir, seguro, no abraço do Sr. Artur. De olhos fechados – estou certa que viam mais do que todos nós com eles bem abertos –, ficaram unidos naquele beijo terno, enlaçados, esquecidos do mundo e dos demais. Nada, absolutamente nada, podia ser mais belo do que o que eu presenciava e sentia. Ainda que o futuro fosse uma incógnita na minha cabeça, ainda que aquele Amor Maior pudesse nunca encontrar o seu caminho até mim, eu soube, naquele momento, que era real. Que pessoas de carne e osso o tornavam genuíno, visível, único. Aquele episódio mudou a minha vida. Tornou-se a bússola da minha alma nos assuntos do coração, guiando-me em muitas tempestades violentas, lembrando-me de nunca viver (voluntariamente) pela metade: o amor era precioso demais para ser tratado como um sentimento de segunda.

 

Deixei de os ver durante muito tempo, ou de passar na Rua das Camélias e, lentamente, a sua memória tornou-se distante e difusa. Contudo, ao longo da minha vida, quando precisei de sair de histórias caóticas, feitas de dor e de engano, eram eles que me ancoravam e me davam forças para me resgatar a tudo que não fosse, realmente, amor. Na verdade, o amor não pode ser chamado de tal sem um lugar seguro onde se cresce a dois, soube-o com eles. Nenhum amor sobrevive uma vida inteira pela metade, nem o amor-próprio consegue tal proeza. E as minhas células recusaram esquecê-lo, mesmo quando a memória o atirou para uma gaveta perra e (quase) esquecida.

 

Esta semana voltei à cidade. Já cá não vivia há muito tempo e soube bem voltar a casa. Perdida em mil pensamentos, dei por mim a calcorrear as ruas que há muito não trilhava, guardadas na pele e na memória. Quando percebi onde estava, tive um baque! Naquela varanda florida à minha frente, assomava em tempos a D.ª Aurora para descansar os olhos da costura. Como era bela, altiva, serena! Aqui, mesmo ao meu lado, aconteceu o trambolhão monumental da D.ª Aurora e a queda por solidariedade do Sr. Artur. Hoje, terão os dois mais de noventa anos. Sorrio, com o coração derretido e, ao mesmo tempo, apertado: é perfeitamente plausível que nenhum dos dois esteja vivo e entristece-me este pensamento. Não quero ir embora, ainda não estou capaz de os deixar partir em mim. Sento-me em frente à varanda, tomo um café e saboreio cada pormenor daquela história, como se tudo se tivesse passado ontem. Décadas de detalhes saltam na minha mente, sinto o coração expandir só por lembrar. Posso sentir de novo o aroma do perfume da D.ª Aurora, posso escutar a sua gargalhada e a voz quente do Sr. Artur! Posso lembrar a dança dos seus movimentos, a linguagem dos seus corpos, a força do seu olhar! Sinto-me em estado de graça enquanto viajo na sua história e a registo em mim, mais uma vez, na esperança de que nunca morra.

Depois de um tempo que não sei precisar, perscruto o local em busca do empregado de mesa. Duas mesas ao lado, uma gargalhada desperta a minha atenção e os meus olhos detêm-se num par de olhos azuis que sorri enquanto, docemente, duas mãos aproximam um rosto do seu e beijam os seus lábios. É quando esses olhos, finalmente, se fecham, que reconheço aqueles dois belos nonagenários. Não os teria reconhecido, todavia, se caminhasse, por ali, distraída… O que eu teria perdido! Estou perplexa! Sinto-me tão grata por este momento… Constato, maravilhada, que o tempo se encarrega de nos tornar magníficos, se tivermos o privilégio de viver longos anos; porém, hábil e determinado, brinca com os nossos traços, ornamenta-os de rugas e torna-nos uns jovens camuflados em fatos decíduos. Enquanto uns amargam, outros transcendem, mas todos, inevitavelmente, envelhecem. Contudo, os olhos da D.ª Aurora não envelheceram um único dia. Alheios ao passar dos anos, continuam majestosos, imensos, felizes, cheios de amor. Não lhes falei mas bebi da sua presença, da sua energia. Deixei-me abraçar pela magia daquele amor de uma vida inteira e pelo sorriso que ainda partilham, tão cúmplice, pleno e sereno. Fui inteira também, naquele momento, naquela esplanada, naquela brisa suave que me trouxe o perfume da D.ª Aurora e a fascinação do Sr. Artur por aquela bela dama por quem, claramente, se apaixonava todos os dias, há mais de setenta anos. Quase duas décadas depois daquele momento que mudou a minha vida, volto a sentir que nada, absolutamente nada, pode ser mais belo do que aquele amor. Na rua onde o tempo para, renasço na certeza de que só poderei viver algo igualmente grandioso se nunca esquecer que, no que toca aos assuntos da alma e do coração, menos que tudo é nada.

 

Hoje, não sobra espaço nesta cama gigante onde durmo todas as noites. Transbordo amor, sinto o meu corpo repousar, tranquilo, imenso. Sinto a alma em casa, dentro de mim. Sou inteira, aqui, agora, em mim própria – sempre fui, na realidade, mesmo quando não o sabia. Sei que já não tenho muitas décadas para crescer e envelhecer com um companheiro, nas curvas do corpo, nos desafios da psique, nas rugas da pele; mas serei inteira numa vida plena vivida a dois, durante o tempo que me for concedido. O meu “Artur” (que já deve vir um pouco sénior) não precisa de se atirar para o chão quando me der o fanico mas, no mínimo, deve ser alguém inteiro também, que não precise de mim para nada mas que me escolha, todos os dias. Enquanto não chega, sei que a Aurora, o Artur, a plenitude e o amor incondicional existem. Sempre saberei. E basta-me.

 

Alexandra Vaz

 

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22.1.18

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Foto: Girl - Alexandr Ivanov

 

A seguir ao almoço, Jorge anunciou uma surpresa: um vídeo de família que tinha deixado a gravar em casa.

- Vou lá num instante buscá-lo!! – disse, saindo à pressa, enquanto o resto da família se espreguiçava no sofá após a lauta refeição.

O “num instante” arrastou-se por mais de 40 minutos e Sofia, impaciente, resolveu ligar para o marido a saber o que se passava. “Tirlili-tirlili”, ouviu-se na prateleira do móvel da sala.

- O totó esqueceu-se do telemóvel! – exclamou Sofia num tom que misturava condescendência e irritação.

A D. Emília prontificou-se imediatamente a ir levar o telemóvel ao filho, o que causou um alarido de comentários: “Claro que não!”; “Que ideia!”. Mas é assim, a D. Emília, sempre disposta a dar a volta ao mundo para satisfazer os filhos, mesmo que às vezes ultrapassasse a barreira do aceitável e do normal.

 

Dez minutos volvidos e Jorge entrou esbaforido pela porta, um sorriso de orelha a orelha, com o DVD na mão. De volta do leitor de DVD do pai, o sorriso foi dando lugar a alguns sopros de impaciência e a frustração instalou-se quando se concluiu que não havia compatibilidade entre o ultrapassado aparelho e o recente LCD adquirido pelos patriarcas. Só que Jorge não se deu por vencido e, apesar de o tentarem demover, saiu novamente rumo a casa e regressou, desta vez rapidamente, com o portátil debaixo do braço e um cabo USB, não fosse o diabo tecê-las.

E foi assim que, finalmente, todos se reuniram pelo sofá e cadeiras em torno da televisão para assistirem ao vídeo que, afinal era uma apresentação de fotografias intitulada “A vida é bela, por Jorge Ribeiro”. À medida que as imagens iam passando, o grupo ia lançando comentários, risinhos, exclamações que traduziam a lembrança de um acontecimento passado. Naquelas fotografias, só momentos felizes de Jorge, Sofia e dos filhos, Miguel e Patrícia: férias, aniversários, passeios. Durante mais de 20 minutos, passaram pelos seus olhos todas aquelas imagens, algumas de anos já muito passados, uma espécie de história de família. E, no entanto, ali não aparecia a depressão do Miguel, da qual estava a recuperar quase a 100%, mas na qual estivera mergulhado no último ano e meio. E tão pouco as imagens deixaram transparecer a traição de Sofia que quase provocou a separação dela e de Jorge, ou a tentativa de suicídio que daí adviera. O “vídeo” apenas focava os bons momentos, como uma espécie de balanço de uma vida quase sempre bela.

 

No fim, todos bateram palmas. D. Emília chorava (de alegria?), emocionada. Só a pequena Luana não aparentava grande satisfação; a sobrinha de Jorge não conseguia compreender porque aparecia tão pouco naquelas fotografias. Todos se riram e explicaram-lhe que era por ser a benjamim da família; não podia, por isso, ter um grande historial de fotos de família. O que ninguém lhe disse (mas talvez tenham pensado) foi que os acontecimentos passados destruíram o convívio e os laços que haviam existido entre todos e que, apesar da alegria que ali parecia reinar, havia uma barreira erguida entre Jorge, Sofia e os filhos, face à restante família – de ressentimento, mágoa, remorso, egoísmo – que haviam reduzido os encontros ao mínimo indispensável.

Mas hoje estavam ali. E sorriam. Como uma família feliz.

 

Sandrapep

 

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19.1.18

Pretty - Deedee86.jpg

Foto: Pretty - Deedee86

 

O primeiro conceito que me ocorre é o de luz, brilho. Só com boa iluminação, conseguimos, naturalmente, ver. Só vendo, apreciamos.

Assim, por exemplo, não sabemos, não conhecemos, olhando a partir daqui do pedaço, como é o outro lado da lua, o lado não iluminado. E sim, parece-me que está certo, com luz vejo, com luz aprecio.

Mas não chega, completando. Não é apenas o que entra pelos olhos dentro, quase como que se impondo, que eu consigo apreciar. Então, se quiser e for caso de passar de uma (mera?) primeira impressão, vou além de ver e junto-lhe o sentir, algo de interior que, na realidade, não se vê, [mais do que ver, sei, sinto; talvez careça de mais tempo, disponibilidade, do que uma rápida vista de olhos proporciona, não desfazendo no conceito de “primeira impressão”] que está no interior, que não tem luz. Aliás quando sou alagado, emocionado, arrepiado por algo de belo, e o belo pode ser qualquer coisa de imenso, incomensurável, é natural que eu feche os olhos. Para perceber, sentir melhor. Interiorizar.

 

A luz dá-me imagens, permite-me compreensão, para além de mil palavras, mas a beleza, mesmo que só física, e pode ser muito mais que isso, percebo-a, ilumina-me completamente se fechar os olhos e tentar contê-la, apoderando-me dela, assim, dentro de mim. Extraordinário, maravilhoso, como a mais pequena coisa, gesto, dito, ato - muito pequena mesmo, (quase) impercetível, para quem (es)tiver com menos disposição, sensibilidade - pode ser imensa, envolver-nos, encher-nos, quase a ponto de não nos contermos e transbordarmos, tornar-nos maiores!

A vida pode ser bela.

 

Jorge Saraiva

 

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15.1.18

Joy - Erge.jpg

Foto: Joy - Erge

 

Mariam Vattalil era feliz a trabalhar com os pobres e oprimidos de Indore, na Índia. Vertia essa felicidade num sorriso fácil, do tamanho do mundo e à medida de cada um. A irmã Sorriso, assim era conhecida, balsamizava a dor dos sofridos, ajudava os desfavorecidos e integrava os expulsos da sociedade que ninguém queria. Chegavam-lhe desvalidos, vítimas da calhordice de seres abjetos que roubavam a dignidade aos pequenos agricultores, despojando-os das terras e obrigando-os a trabalhar no que já fora deles, a troco de salários vergonhosos.

Às vítimas, instava-as a lutar, aos dominadores, tentava sensibilizar. Ensinava aos pobres métodos agrícolas mais modernos de forma a rentabilizarem o esforço despendido. Mostrava-lhes as vantagens de saber ler e escrever, e sensibilizava-os para que enviassem os filhos à escola. Com as mulheres promovia grupos de autoajuda, transmitia-lhes noções básicas de educação, saúde e higiene. Incentivava-as a constituir pequenas poupanças, criar e gerir micronegócios. Mariam Vattalil era o rosto da esperança que faltava naquele ambiente de miséria.

 

Aos oprimidos não lhes é reconhecido o direito a ter esperança – se lhes fossem reconhecidos direitos não eram oprimidos – e a esperança deles era um perigo para a ordem instituída e para a paz podre que a sustentava, por isso, a comunidade Hindu e os proprietários locais que enriqueciam com a pobreza dos desfavorecidos, sentiam-se ameaçados. Primeiro tentaram convencer a jovem a deixar o lugar e a deixar de intervir, mas ela, determinada a cumprir a missão para a qual sentia que tinha sido escolhida, não obedeceu e continuou a fazer o seu trabalho junto dos mais necessitados. Convencidos de que não conseguiriam demovê-la, resolveram encomendar a morte de Vattalil. Samunder Singh aceitou fazer o serviço. Muniu-se de uma faca e, no autocarro em que Vattalil viajava para Indore, desferiu-lhe 54 facadas roubando-lhe a vida. Samunder foi julgado e a sentença ditou prisão perpétua.

 

Um horror difícil de descrever, muito pouco consentâneo com o tema proposto – beleza. Mas se o horror está presente nesta história, também é nele que a bondade do ser humano foi mestra e pincelou um quadro de rara beleza.

Samunder, depois de preso, foi abandonado por todos. A família, envergonhada, não quis saber dele e os que lhe encomendaram a morte de Vattalil, esqueceram-no. A privação de liberdade não o reeducou, transformou-se num ser vingativo, vivia atormentado com um único pensamento: fazer justiça pelas próprias mãos sobre aqueles que o enganaram e abandonaram.

Um dia, inesperadamente uma irmã da vítima Vattalil, visitou-o na prisão. Estava dada a primeira pincelada de bondade na negritude de uma tela que haveria de concluir-se colorida e de uma beleza impressionante. Com uma simples mas imensurável frase, o horror foi-se esbatendo. Frente a frente com o carrasco da irmã, ela abraçou-o e chamou-lhe irmão. A ação da família que tinha perdido um dos seus, de forma tão bárbara e violenta, não se ficou por esse gesto e continuou a surpreender-nos. Moveram influências, fizeram pedidos e conseguiram que a sentença fosse reduzida para onze anos.

 

Quando cumpriu a pena e foi libertado, Samunder procurou-os para agradecer tudo o que fizeram por ele. E com este gesto a tela ganhou novos tons, sobre ela caiu o vermelho sangue, diluído em lágrimas de uma mãe em sofrimento, mas ainda assim, com a grandeza que a individualizou, beijou as mãos do assassino porque sobre elas estava o sangue da sua filha.

Numa cerimónia recente dedicada a Vattalil, ele lá estava, na primeira fila, para a homenagear; mas a mais bela e reconhecida homenagem que ele lhe presta, ainda hoje, é a continuidade do trabalho que ela começou junto dos desfavorecidos de Indore.

Vidas que me inspiram e me aproximam desta tela colorida onde, em traço muito incerto, é certo, lanço o verde da esperança na humanidade.

 

Cidália Carvalho

 

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12.1.18

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Foto: Old-people - Claudia Peters

 

Neste mundo tão materialista e consumista em que vivemos, tudo parece gravitar na órbita do desejo de beleza, reduzida esta unicamente à sua natureza estética e orientada apenas para uma realidade virtual e superficial que nos absorve e que só alegra os olhos e muito raramente o coração. Dir-se-ia que, para alguns, é esse o desejo que inspira o sentido da vida. Será assim? Não, seguramente!

 

A beleza não pode ter esse efeito tão redutor da vida. Sabemos quanto ela motiva e entusiasma tanta gente ligada às artes e à literatura como grande fonte de inspiração que é, sem a qual jamais a arte seria concebível sequer. Contudo, mesmo para lá da beleza natural que nos rodeia: do mar, da luz, dos montes, dos animais, dos movimentos e das pessoas, há uma outra beleza mais profunda, mais verdadeira, mais generosa, que muitas vezes é invisível ou está escondida. Trata-se da beleza interior que deve existir em cada um de nós, a única que não precisa de maquiagem e permanece incólume toda a vida, ao invés da exterior e “fabricada” que se esvai com o tempo. Revelada essa beleza interior, ela pode ser o esplendor da verdade, da generosidade e do humanismo sublime, constituindo um autêntico manancial de virtudes por desvendar. É essa sublimada beleza, de glória e de virtudes, que deve ser procurada. Devemos pensá-la assim mesmo, como uma necessidade e como princípio orientador de educação, de fraternidade, de solidariedade e de alegria.

 

Saber trabalhar e cultivar a beleza interior pode ser o começo para suportar e aceitar com naturalidade o fim da beleza exterior, para mais tarde, no auge da velhice, se sentir feliz e realizado. É assim que, percorrendo esse caminho de virtudes, a vida tem sentido.

 

José Azevedo

 

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8.1.18

Hand - Sabine van Erp.jpg

Foto: Hand - Sabine van Erp

 

Um evento crítico leva-o ao hospital com 89 anos, faltavam uns dias para os 90. Regressa a casa na madrugada do dia seguinte. Apresenta, agora, limitações que o deixam com alguma dependência para o autocuidado. Durante algum tempo tenta-se de tudo para manter todo o conforto que merece e a que tem direito. Todos os dias corre-se para junto dele.

Um desses dias parece mais prostrado e refere uma dor. A ideia era levá-lo novamente ao hospital (e foi o que aconteceu). Numa aproximação muito terna, uma filha aproxima-se dele e pergunta-lhe: quem sou eu? Ele responde: és o meu amor! Haverá algo mais belo que esta resposta?

O amor pelos pais e pelos filhos é indescritível e reflete momentos que transmitem uma grande ternura carregada de beleza profunda. São estes momentos que ficam para toda a vida e que tornam esse amor eternamente belo.

 

Ermelinda Macedo

 

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5.1.18

Altoadige - Giampaolo Mastro.jpg

Foto: Altoadige - Giampaolo Mastro

 

Ela está em cada esquina, sempre pronta a ser contemplada, nós é que parecemos não ver. Está no sorriso de cada criança. Em todos os dias, à hora em que o sol nasce e à hora em que se põe. Existe apenas porque é bela, não para nos alegrar. É, por isso, egoísta. Não se esconde, porque gosta de partilhar com todos o que tem de melhor. É, por isso, generosa. Nós é que teimamos em olhar apenas para a frente, para aquilo que pensamos ser importante, sem dar relevância aos pequenos detalhes que tornam tudo mais belo.

 

Sim, a vida pode ser bela se olharmos com atenção, mesmo que tudo pareça negro. Há quem goste do negro... Transmite calma e serenidade, reflexão e introspeção. Há quem goste de cores, muitas cores, que parecem saltar de alegria. A beleza é assim, aparece quando queremos, desaparece quando não a queremos ver. Por vezes não é fácil comandar a nossa vontade para onde deveria ir, mas é possível. Basta deixarmos que os nossos olhos vejam beleza em alguma coisa. Basta... Mas continua a não ser fácil. Então, resta-nos acreditar que sim e nessa fé também poderemos encontrá-la, a beleza das coisas.

 

Sónia Abrantes

 

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3.1.18

Femininity - Parda Leone.jpg

Foto: Femininity - Parda Leone

 

Dizem que as pessoas do litoral são feias.

E porquê? Porque a beleza está no interior.

 

Uma pequena graça que contém parte da verdade. Não, não é que as pessoas do litoral sejam feias, longe disso, mas sim que a essência da beleza reside no interior de cada um de nós, evidenciando-se à sua maneira. Ela transparece por meio de um sorriso, um gesto afável, uma palavra carinhosa. Parte do âmago da alma e da pureza que nela reside, iluminando os demais em seu redor.

Ainda assim, nesses atos e evidências, o corpo não é descurado. A aparência assume uma importância inegável em vários campos da vida, mas como a palavra o denuncia, não é nela que está contida a verdade. E a verdade é que do litoral ao interior, de norte a sul, todos temos a nossa própria beleza. Parta ela donde parta, está e estará sempre presente, com os seus contornos característicos.

 

Sara Silva

 

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1.1.18

 

Italy - Jacques Savoye.jpg

Foto: Italy - Jacques Savoye

 

A última vez em que me deparei com uma beleza cujo impacto me fez parar e ver, foi num museu. O museu, esse espaço onde ninguém lá mora mas em que guardamos a superação de um qualquer viver humano, permite-me passear pelos temas, cores e texturas de modo lúdico, sendo as regras do jogo: “Vê lá se me prendes.”, ou “O que tens tu para me mostrar hoje?”.

À minha espera, encontrava-se a “Pietà”, de Michelangelo – réplica – numa exposição de Madonnas (iconografia da Virgem Maria como Mãe), numa sala mais ou menos escura, como se o visitante mais incauto levasse o seu tempo a chegar lá e pudesse ser também surpreendido pela sua presença, numa atmosfera mais intimista. Imensa gente, ler a legenda, fazer tempo e sentar. Acerquei-me do banco em frente, quase a pedir desculpa aos séculos por só agora ter chegado ao pé dela e aguardar. Pelo quê, não sabia bem e deixei-me ficar.

 

As primeiras impressões, dizem-nos, levam cerca de 7 segundos a aparecerem, se nos atrai ou se nos afasta. Gostei logo da imensidão da estátua, a sua alvura quase intocável e a sua dimensão que dizia “Eu vim cá para me mostrar!”, sem pudor nem modéstia. E o que me mostrava ela? O que me tocava? No toque, as mãos que percorrem e experimentam são muito importantes. No passe-bem e nas palmadas nas costas. Estas mãos traziam o seu filho, uma mão que o prendia para sempre. A outra mão que se estendia para o céu ou para nós, para um qualquer benemérito que pudesse deixar lá qualquer coisa, essa outra mão pedia-me algo. Nem palavras, nem som, nem nada podia ser dado a essa mão a não ser toda a atenção.

A beleza nesta obra surgiu-me do impacto dos seus contrastes: uma estátua disforme e o desespero de uma figura materna, pequena para tão imensa injustiça; a sua fisicalidade imponente para o silêncio tão íntimo que o grito mudo nos pede, ali a ecoar para sempre. A surpresa do encontro naquela hora tardia trouxe-me o mais belo e o mais terrível. Conversarmos com o nosso belo e com o nosso terrível leva tempo e muitas pautas até se harmonizarem os temperos. Já só queria ficar ali, a conversar com a estátua. Agora, sabia-o bem, iriamos ser amigas e confidentes para sempre.

 

Podemos encontrar a beleza em pequenas e grandes imagens e, naquele momento, a exposição ou prostração da sua vulnerabilidade foi de uma dádiva infinda. Na obra que para mim se tornou bela, senti algo próximo do que aquela mão afinal me pedia e eu nem pressentia o que tinha para dar: um caminho para a redenção.

 

Maria João Enes

 

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29.12.17

Nerves - Gerd Altmann.jpg

Foto: Nerves - Gerd Altmann

 

O cérebro humano, também denominado por córtex cerebral, constitui a maior porção do encéfalo (parte do sistema nervoso que está contido no crânio) e pesa cerca de 1,300 kg. É aqui que encontramos os centros nervosos que regulam as atividades sensoriais (olfato, visão, audição, gosto...), motoras (movimentos dos olhos, expressões faciais, movimentos dos ombros...), bem como as atividades intelectuais (memória, inteligência...). Este é um dos mais complexos, desafiantes e misteriosos órgãos humanos para toda a Comunidade Científica e até mesmo Humanidade!!!

 

Eis três, dos inúmeros, misteriosos exemplos, que nos fazem tocar, levemente, na complexidade da dinâmica que o cérebro representa e na sua extrema importância para fazer de nós, aquilo que somos:

 

- Personalidade: podemos definir muito resumidamente a personalidade como um conjunto individual de pensar, agir e sentir que definem a nossa identidade como pessoa. Atualmente, e embora a Ciência já tenha descoberto que certas zonas específicas do nosso cérebro estão relacionadas com funções físicas particulares, a localização da personalidade continua a ser um mistério, quer seja considerada globalmente ou mesmo no seus diferentes traços e/ou funções;

 

- Consciência: este é um tema de inúmeras discussões quanto à sua definição. Uma das questões mais fortemente debatidas é se a consciência humana representa, ou não, um atributo não-científico e inatingível que transcende o conhecimento científico. Categorizando assim o “cérebro” como algo quantitativo e mensurável pela Ciência e a “mente” como uma entidade distinta de componente qualitativa.

 

- Sem descanso: apesar de todos as noites dormirmos, independentemente da qualidade do nosso sono, a verdade é que o nosso cérebro nunca descansa. Pelo contrário, os cientistas descobriram que o nosso cérebro fervilha de atividade durante o sono. O modo como o cérebro funciona durante o sono permanece ainda um mistério, apesar dos cientistas terem já descoberto os cinco estágios de evolução do mesmo.

 

Miriam Pacheco

 

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25.12.17

Dream - 366308.jpg

Foto: Dream - 366308

 

Há uns anos atrás, nem eu gosto de pensar quantos, a nossa televisão e, naquele tempo, a nossa vida foram invadidas por uma telenovela épica, de seu nome Tieta. Épica porque, como na altura (pasmem-se!) passava apenas uma novela de cada vez, todas as atenções estavam voltadas para o desenrolar daquela história passada na cidade fictícia de Santana do Agreste, sobre a exuberante Tieta. Para além da protagonista e de todas as outras personagens marcantes pela beleza e pelo desempenho, nessa trama existia uma personagem muito engraçada e carismática chamada Dona Milú (interpretação de Miriam Pires), que juntamente com a sua filha Carmosina, abria as cartas chegadas para os habitantes da cidade, com a ajuda do bico da chaleira da água a ferver. Esta personagem tinha uma expressão deliciosa, que ficou na lembrança de muita gente: olhava fixa para o ecrã e dizia “Mistéeeerio”. Só de recordar essa expressão, sorrio. De entre aventuras e desventuras, havia dois grandes mistérios a resolver na história, o que será que Perpétua (irmã de Tieta) guardava tão carinhosamente numa caixa, e quem seria a “Mulher de Branco”, que atacava os homens na calada da noite? Como seria de esperar, esses mistérios foram arrastados até ao fim da história: descobriu-se quem era mulher de branco, uma respeitável senhora da sociedade santanense, diga-se, e quanto à famosa caixa, nunca foi revelado ao público o que continha, mas ficou no ar uma divertida hipótese do que seria (para quem não viu esta novela: diz-se que o que estava guardado na caixa seria o órgão genital do falecido marido...).

 

Tal como nesta história da Tieta, na vida existem mistérios maus e mistérios bons. Os mistérios maus são acontecimentos ruins e catastróficos que nunca foram resolvidos: assassinatos, desaparecimentos de pessoas, quedas de aviões, navios naufragados… Não gosto mesmo nada! Arrepiam-me e incomodam-me. Por isso, gosto de séries e filmes policiais e de investigação, porque invariavelmente no final se dissolve o mistério e quando isso não acontece num episódio significa que a história continua no próximo. E quem nunca se deliciou com o traquejo de Hercule Poirot, com o seu sotaque francês e métodos sui generis, ou com a fabulosa Miss Fisher?

Mistérios bons, para mim, são aqueles que não têm uma explicação lógica e que por isso são tão interessantes e encantadores. Haverá delícia melhor do que o mistério chamado Amor? Qual a ciência ou razão lógica que aproxima duas pessoas, dois corpos? Como é possível que duas pessoas saibam através de um olhar que estão destinadas uma para a outra? Sente-se, pronto! É essa a beleza do amor e de todos os sentimentos que nos comprazem.

 

E refletindo sobre o mistério da vida… Como será que tudo começou realmente? Adão e Eva, ou desenvolvimento de espécies? Será que me interessa realmente essa reflexão? Nem por isso… estou cá, nasci, cresci, vivo. Quem fala do mistério da vida, fala dos mistérios de Deus. Será que é apenas uma ideia que o Homem foi desenhando à sua imagem? Será que os eventos narrados na Bíblia aconteceram mesmo? O Mar Vermelho abriu-se mesmo para Moisés? Jesus multiplicou mesmo os peixes? Transformou mesmo a água em vinho nas bodas de Canaã? Ou será que, no fim das contas, tudo não passa de uma mistura de eventos e conveniências por parte dos líderes religiosos? E no fundo, para que me interessa essa explicação lógica, essa certeza, se me sinto em paz e acolhida, parte de algo, quando assisto a uma missa com os meus padres de eleição, quando entro numa Igreja e aprecio as imagens dos santos, quando olho com carinho para o meu São José? São mistérios que aprecio e me alimentam a alma. Dizem os entendidos que são mistérios da Fé.

 

Para além destes mistérios, bons e maus que abordo e exemplifico, gosto muito, mas mesmo muito daqueles mistérios que nos permitem dar largas à imaginação: cá, entre nós, o que será que estava realmente guardado naquela caixa de papelão da viúva Perpétua? Mistéeeerio!!!

 

Ana Bessa Martins

 

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22.12.17

Mac - 377053.jpg

Foto: Mac - 377053

 

É curioso como evoluímos como espécie, somos capazes de fazer viagens intergalácticas, operações minuciosas de órgãos, enxergar a milhões de quilómetros de distância, mas ainda não temos a menor ideia de porque aqui estamos e para onde vamos quando partimos.

A morte, o maior mistério de todos, nos coloca de joelhos e nos faz lembrar a nossa insignificância. Há quem creia que aqui se acaba tudo, por isso não tem mistério algum. Cada um de nós tem dentro de si um palpite ou uma crença, mas a verdade é que certeza, não temos nenhuma. Esse mistério da vida e da morte nos acompanha como seres conscientes que somos da nossa perenidade, mas muitas vezes somos arrastados pela vida afora e acabamos por crer que a vida é infinita e que somos indestrutíveis. Não queremos ser lembrados da nossa incapacidade de controlar o incontrolável. Mas como seria a vida se soubéssemos o nosso fim? Seríamos as mesmas pessoas que somos? Agiríamos da mesma forma? Se tivéssemos a certeza que não há um “outro lado” seríamos melhores ou piores pessoas do que somos?

 

Os mistérios da vida estão muitos ligados às religiões que tentam dar as explicações para aquilo que ninguém consegue explicar, efetivamente. Nos acostumamos a fazer orações, ir à igreja aos domingos, meditar, ou qualquer acalanto à nossa ignorância sobre o nosso futuro. Mas será que estamos mesmo preparados caso tenhamos que responder por nossos atos nessa vida? Será que fazemos o nosso melhor para estar sempre de cabeça erguida? Será que somos capazes de enxergar além do aqui e agora? Infelizmente (ou felizmente) o Google ainda não responde para onde vamos quando morremos, temos que conviver com isso. Com o peso da ignorância e da certeza que muito pouco sabemos.

 

Leticia Silva

 

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