11.12.17

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Foto: Russia - CrazyRussian

 

“Não descubras o teu peito,

por maior que seja a dor –

quem o seu peito descobre,

de si mesmo é traidor.”

 

Não me lembro bem da primeira vez que ouvi essa quadra - tão cheia de sabedoria - mas lembro-me, sim, muito bem, quando comecei a entender-lhe o significado.

“Se os olhos são a janela da alma, o segredo é a alma da verdade”, dizia-me também a Sra. Camila, a Guardadora de Mistérios. E continuava: “Cada um tem a sua própria e íntima verdade... Se a confiar totalmente aos outros, vai, ao mesmo tempo, expor-se a julgamentos e impor-se como juiz. Há que nunca perder o mistério dos pequenos silêncios – os pequenos silêncios são irmãos do encanto das grandes palavras.”.

A Sra. Camila era a velhinha mais velhinha da aldeia. Era o que eu achava. O seu rosto miúdo, emoldurado pelos finíssimos cabelos tecidos da primeira luz das manhãs, era um campo sagrado: continha vinhedos de outono, sulcos geados de sementeiras, vestígios de ninhos de andorinhas, trigais já segados de pão, ribeiros secos pelos desertos da vida. Boca, quase nenhuma, sugada pela falta de dentes, e olhos feitos de água fresca – dois poços fundos, insondáveis, porém saciantes, retemperadores, cheios de paz e sabedoria. E de mistérios. Todo o conjunto, toda a morfologia facial da Sra. Camila, era uma página... não! – um livro inteiro, não só de Geografia – física e humana – mas também de História.

 

Histórias. A Sra. Camila, sabia contá-las como ninguém! (deixaram-se iludir por aquilo de “boca, quase nenhuma” e “guardadora-de-segredos-irmã-do-silêncio”?... ah, desenganem-se! – ela, apesar de saber imensamente mais do que me contava, era um livro, eu não disse...?! - da sua boca pequena e flexível, como ramo de árvore ainda tenra, voavam bandos de palavras que sabiam todos os ninhos da minha imaginação!)

Aí é que está – a minha imaginação: era nela que eu chocava os mistérios. Era nela que guardava os segredos que ia descobrindo, à medida que iam nascendo as pequenas certezas que lá cabiam. E os meus próprios mistérios, novinhos em folha. Bastantes, até. Mas, claro, não tantos como os que a Sra. Camila trazia nos olhos. Ah, não!...

Ela era uma verdadeira Guardadora de Mistérios. E repetia-me, entre histórias de faz-de-conta, e contas do seu rosário: “Sabes, Teresinha, devemos deixar que os outros granjeiem um quinhão de terra, no lameiro que nos pertencer por direito. Mas só se o quiserem, se o merecerem e se tu achares que eles têm necessidade disso para sobreviver. E só lhes permitas o quinhão bastante para essa sobrevivência! O melhor, o maior, deixa para ti – nunca se sabe se quem te renda, um dia te rasga. E nunca se sabe se esse que te rasga, ou outro que venha, um dia, não precisará que tu o remendes... com a grandeza da tua alma e a garantia da tua granja.”

 

Eram palavras algo confusas para eu entender, na altura. Mas ia percebendo uma verdade: os mistérios são como ninhos – é bom descobri-los, saber que estão lá, no alto daquela árvore, mas o segredo de todas as primaveras é respeitar-lhes a arquitetura, ter cautela, não espalhar a notícia; cuidar de manter os ramos intactos e a peugada despercebida e esperar que os ovinhos se tornem passarinhos – guardadores do grande mistério do voo.

 

Teresa Teixeira

 

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8.12.17

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Foto: Furious - Robin Higgins

 

“Um dia destes, acordo desta letargia, esbofeteio-me, com vigor, para a vida não ter de o fazer mais, fecho todas as portas entreabertas sem olhar para trás e decido que é tempo de viver a sério.” Renovei estes votos, ano após ano, a cada desafio enfrentado; quis muito acreditar que isto seria suficiente para que a minha alma escapasse daquilo que a consumia. Aceitei dos outros a falta de razão, de justiça, de integridade, como se não as merecesse, para não enlouquecer. Aprendi, muito cedo, a suportar em silêncio, sem chorar, a maldade daqueles que deveriam proteger-me.

 

Todavia, entorpecidos os sentidos, manter a cabeça à tona revelou-se uma tarefa titânica. Viver entre o que se faz porque deve ser feito (ou assim se enraizou a coisa) e aquilo que realmente nos faria flutuar, sem esforço, é completamente desgastante. Sentir a alma voltar-nos os pés noutra direção e ainda assim ficar ali, onde nada se pode curar é, simplesmente, insano. Não há forma prosaica de o dizer. É-me, particularmente, penoso porque o masoquismo não consta do meu cardápio, em dia nenhum do calendário. De bom grado eliminava esta ferida, num golpe misericordioso e, talvez, talvez ainda restasse algo de mim que se pudesse salvar. Escapei o melhor possível durante décadas. Enfrentei vários demónios para os deixar partir, fechei algumas das tais portas escancaradas e aprendi, muito recentemente, a dar explicações, apenas e só, a quem as merece. Mas, volvidos todos estes anos, constato que não curo a minha maior ferida, que ainda permito uma violência emocional desmedida e que sou completamente incapaz de a entender ou de me proteger dela.

 

Andei cá e lá, movida pelo amor que me liga a ti, nesta formatação da minha pessoa, na qual tu foste, sem dúvida alguma, a medida de todas as coisas. Vivi na tua sombra, respirei o teu dióxido de carbono (acreditando ser oxigénio), fui o alvo das tuas críticas, nesta vida que me foi roubada sem apelo nem agravo. Foste e és protagonista na tua vida, sempre a mãe de todas as dores, a mais sofredora, a que mais lutou, a mais prendada, a mais organizada, cobriste-te com esse manto de tantos predicados luminosos que deixaste de nos ver – continuo ingénua, vês? Desconfio que nunca me viste realmente, não como sou. Esperei que um dia me amasses, me desses paz, me fizesses sentir segura mas, até hoje, partilhar o teu lar é mergulhar, de olhos bem abertos, num espaço que me fere, onde durmo e me movo hipervigilante, frágil e assustada. Crescer não me tornou imune a ti, não impediu que te movesses na minha vida como se esta te pertencesse. Uma sequela da tua vida, à mão de semear, sempre que dela precisasses. E sim, tu precisas sempre. Tu precisas sempre mais do que toda a gente. Não interessa o esforço dos outros, os sacrifícios que fazem para colmatar as tuas necessidades, não interessa o quanto nos matas lentamente, desde que haja alguém que escute as tuas lamúrias. Na tua dor és Rainha, na dor dos outros és Comodoro. E eu sou o teu permanente dano colateral, simplesmente, porque me permiti acreditar, durante demasiado tempo, que esta história podia ter um final feliz. Um dia irias ser grata pelo amor que tinhas e, esse milagre, ia parecer-te tão grandioso e tão sublime que nunca mais te queixarias de nada. Nesse abençoado dia, irias perceber todas as coisas maravilhosas que ainda tinhas, todas as bênçãos que recebias diariamente e o quão privilegiada, afinal, tinhas sido. Serias Amor e Gratidão e eu estaria, automaticamente, curada – gostava tanto de ter conserto. Seria linda, a metamorfose singular da minha alma: de pião das nicas à redenção. Sonhei, repetidamente, com esse dia, acreditei com todas as minhas forças que, no âmago da minha pessoa, permaneceria, intacta, a capacidade de te aceitar a qualquer altura, sem contrapartida, sem recalcamentos, plena de amor. Mas a vida tem-se escoado a cada dia, levando com ela a força e a esperança que me restavam nesta nossa relação.

 

À medida que me desformato, constato, com profunda tristeza, a extensão desses danos dentro de mim. Como pude acreditar que podia passar por isto (quase) incólume é algo que me transcende. Neste lugar que ocupo agora, onde mal respiro, oiço o eco da tua voz e, mesmo à distância, até esse, me empurra para baixo. Voltaram o buraco no estômago, o nó na garganta e a sensação de abandono, alimentados pela migalha que ainda permito que me dês. Nela, a tua total incapacidade de ouvir o meu grito, ainda que este seja, mais amiúde, sonoro e lavado em lágrimas. Tudo passa, tudo é ligeiro. Nos outros. No palco da existência, debaixo do teu holofote, apenas tu e todos os teus dramas. A tua cacofonia silencia qualquer queixume. Já não consigo viver tão zangada. Não consigo dormir de olhos abertos, punhos em riste e acordar, semana após semana, com medo de sair da cama e de enfrentar as exigências do dia. Se não te consigo transmitir nada de bom, não posso permitir mais que me arrastes contigo para esse catastrofismo militante do qual te recusas a sair. Já percebi que estás em casa, nesse lugar de dor que tratas com tanto esmero. Mas eu não posso continuar aí, contigo, tão perdida. Quem sou eu, afinal, fora do teu sistema solar? Por que é amar-te uma sentença de morte? Preciso de asas para voar mas as minhas raízes foram-me violentamente arrancadas: como faço agora para me levantar? Preciso de um lugar seguro na minha vida. Preciso de dormir sem medo. De respirar profundamente. E de aceitar, de uma vez por todas, que há um preço a pagar por permanecermos onde nos ferimos; eu, reconheço, já lá estou há demasiado tempo. Não quero mais esta pena perpétua, camuflada de amor, em nome do bem maior. Por que somos quem somos, na vida uma da outra, permanecerá um mistério. Aceito-o, finalmente. Agora, por favor, leva-o contigo e deixa-me ser a pessoa de quem precisei a vida inteira.

 

Alexandra Vaz


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4.12.17

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Foto: Roasted-Chestnuts - Cristina Pechirra

 

Há coisas que eu, realmente, não entendo. E logo eu, que sou entendido em tudo aquilo que penso e falo! Mas é que tu, tu és estranha!

De manhã, estavas capaz de me esganar porque tiveste que parar de estender a roupa para encher as bolas de basquetebol para os miúdos jogarem, enquanto eu estava refastelado no sofá.

E suspiraste de desilusão quando foste ao armário de ferramentas em busca de fita adesiva para tentar tapar a fuga de ar da bomba manual e encontraste o livro que comprei para te oferecer este Natal - como se eu pudesse adivinhar, após 15 anos de casamento, que tu detestas romances do tipo “Nicholas Sparks”.

E não disfarçaste a tristeza quando, mais uma vez, eu troquei o plano prometido de uma matiné no centro do país, por um rápido passeio na cidade.

E posso jurar que vi nos teus olhos duas lágrimas prestes a rolar (desespero ou raiva?), quando, num dos meus típicos momentos de avareza galopante, fui estacionar o carro quase a 1 km da marginal só para não ter que pagar o parque.

 

E vai daí que, de repente, quando passavas pelo assador de castanhas e lhe lançavas um olhar de desejo reprimido, eu me lancei sobre ele e comprei-te um cartucho. E, como que por encanto, o teu semblante alterou-se radicalmente. Voltaste a sorrir, disseste-me um “obrigada” embargado de emoção e, de besta, passei a bestial!

Mas que poder misterioso terão estas castanhas assadas, que te fizeram esquecer tudo o que estava para trás? Seria porque tu adoras castanhas ao ponto de te deixares enfeitiçar pelo seu sabor único, quentinho e esbraseado? Ou talvez porque eu te tenha surpreendido com um gesto que demonstra que, afinal, eu até me importo um bocadinho contigo, e que, apesar de me ter torcido todo ao desembolsar aqueles 2 € para pagar as famigeradas castanhas, fi-lo para te agradar?

Eu cá não sei. Só sei que és estranha como o caraças, porque num momento pareces detestar-me e, noutro, é como se me amasses com a força do primeiro dia. Serão assim todas as mulheres?

Bem, também não vale a pena pensar muito nisto, deixa-me relaxar no sofá a ouvir os comentadores da bola, que o Porto está em alta e isto de ter tido um momento de gentileza pôs-me de rastos.

2 €... Que roubalheira, por um punhado de madeira!!

 

Sandrapep


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1.12.17

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Foto: Pray - Martine

 

Vamos começar por algo bonito, que há borboletas bem lindas, vistosas, coloridas, ainda que algumas tenham figurações que pretendem ser ameaçadoras para os seus predadores. Comecemos pela borboleta tropical pois então.

Aviso, em tempo: a história, exemplificativa, começa bem, bonita, mas vai acabar mal, qual tempestade. Cientificamente, é uma história, digamos, determinística, com relação de causa e efeito. Na teoria do caos, dizem-nos que um bater de asas de uma linda borboleta na região do Amazonas, Brasil, pode vir a causar um tornado, um furacão nos estados do midwest norte-americano!

Para os cientistas, por uma via, em termos religiosos, por outra, está tudo, ainda que de formas bem complexas, explicado. Para um simples mortal, acontecem coisas inexplicáveis, verdadeiros mistérios.

A mínima diferença, modificação, das condições de uma situação considerada de partida, pode gerar consequências inimagináveis (inexplicáveis para o ser humano médio - excluindo, portanto, os especialistas e os ignorantes), de dimensões catastróficas ou, (porque não?) maravilhosas. Não apenas na meteorologia, pode ser na língua escrita e falada, pensemos por um momento que o português de Portugal e do Brasil tem a mesmíssima origem, há cerca de tão só 500 anos, mas pequeníssimas diferenças circunstanciais foram originando palavras novas e termos e expressões iguais à partida vieram a ter aplicações e significados diversos, em alguns casos aproximando-se do antagónico; pode também ser um episódio idêntico que significou para duas pessoas uma perda, tendo para uma consequências desastrosas, mas proporcionou uma sucessão de boas oportunidades para a outra (os males que vêm por bem).

 

Já terá dado para perceber o ponto de vista.

Não vou maçar-vos mais: passo para as conclusões - que, rogo, sejam aplicadas por cada um ao que lhe interesse - o mundo, a sociedade, a nossa vida, sem mistérios seriam muitíssimo menos interessantes, se se puder comparar!

Convirá é, perante as circunstâncias, que há que aceitar, não nos colocarmos apenas como efeito, mas também como causa, agente, ator. Mesmo rezar o terço, para quem o faça, digo eu e justificando o título da prosa, não deverá ser um ato mecânico, uma lengalenga sem sentido.

 

Jorge Saraiva


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27.11.17

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Foto: Sea - 12019

 

O Mar, com os seus mistérios naturais, com os seus encantos e seus perigos, é um rico e fértil território para o desenvolvimento de mitos e lendas. Tal deve-se, por um lado, ao mistério e ao desconhecido que habita nas suas paragens longínquas e, por outro lado, à própria imaginação do ser humano.

Há muito que se ouvem histórias sobre monstros e criaturas marinhas, fantasmas que assombram os oceanos. Podemos destacar na “Odisseia” o episódio das sereias encantadas, que, com os seus cantos, levavam homens e almas para o fundo do Mar; o célebre mistério do triângulo das “Bermudas” em que navios e embarcações misteriosamente desapareceram; a história ou mera lenda sobre a “Atlântida”, esse antigo continente que teria formado uma ligação entre a Europa e a América; o fenómeno das marés, influenciado ou não pela Lua, que ainda não foi totalmente explicado. Fonte contínua de vida e de inspiração para o Homem, o Mar guarda mistérios insondáveis e esconde dentro de si múltiplos segredos.

Pouca ou nenhuma gente saberá dizer o que se esconde nas suas profundezas, mas, seguramente, constituirá sempre um mistério algumas das formas de vida dos animais e plantas que nele vivem. Ainda bem! Sem ele - até porque nos brinda com o melhor dos nossos alimentos - o Mundo em que vivemos seria inconcebível. São os seus mistérios que o tornam ainda mais enigmático. Sua grandiosidade, sua força incomensurável, sua beleza natural, sua inesgotável fonte de recursos têm inspirado, ao longo dos tempos, obras-primas da literatura e da poesia. Cada mistério que dele se desvenda parece ser um milagre da “Natureza”. Amorável e austero, guia da humanidade, foi ele que embalou o berço do Homem e que em seguida o despertou para os grandes feitos, sugerindo-lhe as primeiras noções do Universo.

 

Pode afirmar-se que o Mar tem muito da natureza humana. Mas cuidado, o Mar também inspira respeito e muito! Por isso, deixemos de o agredir e de o tratar tão mal, como vem acontecendo nos últimos anos, com o lixo para ele lançado. O Mar só causa problemas a quem não o respeita e, para evitar esses perigos, basta respeitá-lo. Saibamos, por isso, respeitá-lo para podermos continuar a sonhar e a desfrutar dos seus encantos e mistérios.

 

José Azevedo

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24.11.17

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Foto: Gargoyle - Dean Moriarty

 

Ao ver o velho portão não consegui conter um largo sorriso onde cabiam os medos ingénuos da infância. Para muitos ele era apenas o velho portão, guardião da casa em ruinas, mas para mim ele ganhou História com as histórias que dele se inventavam, ou não. Também ele cedeu ao tempo, estava perro e a ferrugem tingiu de ocre o chão. As ervas cobriram o passeio até à casa e estendiam hastes ameaçadoras por entre o gradeado. Mas, apesar de abandonado, ansiava atravessá-lo, queria chegar à casa e ver o que encerrava e que tanto assustava a pequenada do meu tempo. Empurrei-o. Rangeu furioso, protestante por ser arrancado à sua quietude, mas não se mexeu. Apliquei-me ainda mais, empurrei-o novamente, cedeu alguns centímetros, ainda assim não me permitiu entrada. No alto do gradeamento as carrancas de madeira intencionalmente ali colocadas pelo antigo dono, pareciam rir-se do esforço. Lá ao fundo, nas paredes da enigmática casa, as gárgulas demoníacas confiavam-se ao decrépito portão. Há muito que deixei de me assustar com tamanha fealdade, mas tempos houve em que só passava junto ao portão acompanhada dos meus colegas, tão assustados quanto eu. Se chovia e fazia vento, o ruído dos ramos das árvores adensava o mistério do lugar, mas se o tempo era de calmaria e a natureza se quedava, até o som das delicadas sementes das brizas e o balouçar do espanta-espíritos no alpendre nos chegava ameaçador. Dos adultos, ouvíamos as histórias fantásticas dos acontecimentos. Pessoas que desapareciam, tesouros guardados por um touro diabólico, barulhos indecifráveis, luzes que se acendiam e silhuetas que passeavam pela casa e pelo jardim. Assim, com todo este peso simbólico, quando a pequenada queria aferir da valentia de alguém, desafiava para passar o portão, atravessar o jardim e entrar na casa. Os mais aguerridos aceitavam as apostas, mas envergonhadamente derrotados desistiam mal a haste de uma erva lhes roçasse a cara. Lembro-me de um que, já quase a entrar em casa, fingiu uma entorse no pé quando subia o alpendre, desistiu, mas todos lhe admiraram a coragem, nunca ninguém tinha chagado tão próximo de entrar na casa.

 

Por essa altura chegou à escola um menino de uma aldeia vizinha. Desconhecedor dos fenómenos, aceitou entrar em casa e, com a inconsciência que a ignorância confere, sem rodeios abriu o portão, passou o jardim e entrou. Cá fora, com as caras encostadas às grades, as crianças esperavam. Era muita a ansiedade e a espera interminável, alguns adiantavam que era mais um a desaparecer nas ruínas misteriosas da mansão. Com a culpa a aflorar nos gestos e risinhos nervosos, já falavam em ir embora quando, com a mesma segurança com que entrara, viram o rapaz assomar à porta. No jardim cortou um ramo de flores bravias que entregou à Margarida por quem, diziam, se encantara, com a promessa de a levar com ele da próxima vez que ali voltasse. E ela, embevecida, prometeu-lhe que assim seria. Os outros procuravam sinais de pânico, faziam-lhe perguntas do que vira e ouvira e de como era lá dentro, mas o rapaz a nada respondia.

Um dia, no fim das aulas, viram-nos entrar na casa, ele à frente e ela atrás, hesitante mas obediente ao chamamento do amigo. Não avaliaram quanto tempo por lá andaram, mas quando saíram vinham de mãos dadas e sorriam. E se assim era com eles, então talvez não houvesse razão para tanto medo à volta da casa, pensavam os outros. Não sei se algum deles se atreveu alguma vez a passar o portão, mas aquele lugar deixou de ser misterioso e perdeu a curiosidade que até então suscitara. Passávamos sem a olharmos e caminhávamos de costas viradas sem receio de algum perigo que nos pudesse surpreender.

 

Ainda tento, mais uma vez, enterrar este fantasma do passado; gostava muito de visitar a casa, mas o portão teima em não se deixar arrastar. Dou meia-volta com intenção de me afastar. De repente, atrás de mim, o ranger de ferro-velho. Viro-me ainda a tempo de ver o velho portão fechar-se abruptamente. E, como antigamente, o riso das gárgulas e das carrancas a estugar-me o passo para longe daquele lugar misterioso.

 

Cidália Carvalho

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22.11.17

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Foto: Scientist - Lucas Vasques

 

O que vai ocorrer daqui a alguns dias na vida de cada um? É desconhecido.

Como vamos reagir aos acontecimentos ocorridos? Não adivinho.

Como vão reagir as pessoas ao meu comportamento? Não sei.

O que esperam as pessoas de mim? Não faço ideia.

O que espero dos outros? Tenho uma ideia, mas não arrisco ter certezas.

Que acontecimentos são previsíveis? Já se soube mais relativamente a alguns… as variáveis alteram-se.

Porque ocorrem determinados fenómenos naturais? Várias explicações aparecem para os justificar.

Como se reorganizam vidas interrompidas por fenómenos devastadores? Só consigo dizer que deve ser muito difícil.

Apesar das fantásticas descobertas científicas e tecnológicas, porque é que vários tratamentos funcionam em algumas pessoas e noutras não? O que fazer na individualidade que nos define? Ainda é um campo a descobrir? Ao que parece, sim.

Quantas questões se poderiam colocar que se afiguram difíceis de obter resposta? Um número indefinido.

Quantas respostas com incerteza se poderiam avançar? Muitas.

A vida é um conjunto de mistérios? Talvez!

 

Ermelinda Macedo

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20.11.17

Ballerina - Pexels.jpg

Foto: Ballerina - Pexels

 

Caminhava despreocupadamente pela rua, distraída com os afazeres da rotina. Sem que nos apercebamos, é assim que a vida passa por nós, enquanto a mente está mergulhada noutros mundos. Foi então que um vislumbre a retirou das indagações trazendo-a para o presente. A visão de alguém longamente ausente, ali, num acaso curioso proporcionado pelos fios do destino. Depois de usufruído o momento, deu por si a pensar em como há acontecimentos e coisas que não são possíveis nem passíveis de serem explicadas. Não havia qualquer razão nem fundamento para aquelas duas almas se encontrarem no mesmo espaço à mesma hora. Mas a verdade é que foi isso o que sucedeu.

 

E quantos mistérios mais existem sem que os entendamos ou compreendamos por completo!... Talvez nunca venhamos a descobrir a origem verídica do universo, de que é que é feito o divino, o porquê do ser humano habitar a Terra ou da vida existir assim, tal e qual como a conhecemos. Talvez nunca saibamos o que existe além da vida corpórea, o porquê de certos sonhos se constatarem na realidade, os contornos da verdade em diversos contextos e o que sustenta as capacidades infinitas de que somos portadores. Não há ciência nem razão que consigam detalhar e aprofundar tudo o que ocorre, havendo sempre alguma coisa que carece de explicação. Porque nem tudo foi feito para ser entendido, mas sim para ser sentido, de modo a que a sua essência e a sua substância se revelem em todo o seu esplendor.

E é assim, graças a esses mistérios, que é conferida alguma magia à nossa existência.

 

Sara Silva

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17.11.17

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Foto: Flatfoot - Stefan Schweihofer

 

Nada sabemos.

Quando pensamos que conseguimos prever tudo, trabalhar para um objetivo, antecipar todas e mais algumas respostas e reações, nada sabemos.

Decidir com ponderação? Sim.

Decidir com a certeza de que é o mais acertado? Não, pelo menos amanhã.

Nada sabemos.

Hoje acordo e penso: vou treinar, conversar, trabalhar, almoçar, ...

Afinal o que acontece é: tive um furo no pneu do carro, treinei em casa, conversei com as paredes, almocei algo que coloquei na liquidificadora só para dizer que comi.

E quando ela acontece? A morte...

Morte de um pensamento, de palavras ditas. Morte de uma relação, de um amor. Morte de um ser, de um sonho...

Nada sabemos.

O que nos move? Isso mesmo, o nada saber e querer desvendar esse mistério permanentemente.

 

Sónia Abrantes

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15.11.17

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Foto: Knight - FotoRC

 

Deficiência é uma palavra pesada, carregada de negativismo que a história da Humanidade foi usando e abusando da forma que lhe deu mais jeito. Não é raro ouvirmos na rua alguém chamar deficiente a outra pessoa da forma mais grotesca e gratuita, quando na verdade, a verdadeira deficiência está em quem não aceita a diferença. Eu não tenho grande conhecimento nessa matéria, o que posso referir é que acredito que as pessoas com limitações são um grande exemplo na forma como se superam a si mesmas. É o caso do meu Amigo Iluminado.

O meu Amigo Iluminado era um jovem de 17 anos, no despontar do seu florescimento para a vida, com todos os sonhos nas mãos, quando umas dores muito intensas no joelho direito o levaram na direção do IPO. Assim sem mais nem porquê, foi-lhe diagnosticado um tumor maligno. Após semanas de quimioterapia que não surtiram efeito, o meu Amigo Iluminado foi confrontado com a terrível realidade de que para viver teria de amputar a perna direita acima do joelho. Já disse que ele tinha 17 anos? Recebeu sozinho a notícia numa consulta de grupo, as lágrimas rolaram-lhe pela face durante muito tempo, mas mesmo assim, chegou à enfermaria e almoçou com as lágrimas a misturarem-se na comida. Quando chegaram os pais para a visita e teve que lhes dar a dura notícia, chorou com a Mãe e ainda a confortou o melhor que pode. Desde a cirurgia, até ao momento em que começou a usar a sua primeira prótese, passaram mais de oito meses. Nunca se queixou, nunca se deixou ir abaixo, sabia que era uma questão de escolha: viver ou morrer. O que eu acho mais espantoso para além de toda a força de vontade que sempre demonstrou durante esse processo, foi a Fé que ele sentia e ainda sente.

 

Conhecemo-nos por esses dias, há cerca de oito anos, numa altura em que as trevas ainda circundavam muito a minha vida, e com o passar dos dias fomos cimentando uma amizade e uma cumplicidade excecional. O meu Amigo Iluminado, mesmo morando numa cidade vizinha, tornou-se presença constante na minha vida e, como eu lhe chamava um verdadeiro Mosqueteiro, partilhámos alguns momentos verdadeiramente cúmplices. Foi (ainda é) de longe, um dos melhores amigos com que a vida me presenteou.

O que é que eu aprendi sobre deficiência durante estes anos com o meu Amigo Iluminado? Muito pouco. Mas sobre superação, sobre Fé, sobre acreditar, sobre seguir em frente, o meu Amigo Iluminado deu-me uma grande lição. Por esta altura, já não tem 17 anos, mas continua a ter todos os sonhos do mundo nas mãos e sabe que só depende de si próprio para que estes se realizem.

 

Ana Bessa Martins

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13.11.17

Balcony - Hans Dietmann.jpg

Foto: Balcony - Hans Dietmann

 

No outro dia sentei-me num banco de jardim a observar. Observar tudo. As árvores, os carros, as varandas, a roupa a secar nessas varandas. Até observei os cheiros, as texturas, o sabor de tudo. Observar é maravilhoso. Apenas sentir tudo com profunda atenção e com o mínimo de julgamento. Enche o coração de alegria e clarifica o mental. No fundo, é uma meditação. Estar conscientemente concentrado em algo é purificante. É uma das formas mais simples de preencher um vazio da alma, porque quando algo nos falta, seja a nível físico, seja no coração ou na alma, é preciso encontrar aquele lugar que existe em nós, bem lá no fundo, que é onde reside a tranquilidade. É onde se pode perceber de forma quase mágica que tudo acontece por uma razão, que nada é caótico na nossa existência. E esse caminho pode ser encontrado através dos sentidos. Todos eles ou apenas um, nos podem levar a esse estado de apaziguamento. Como? Observando... não com os olhos, mas sim com a Alma. Perceber, aqui, agora, que temos exatamente o que precisamos para evoluir. Nada falta. Tudo está no lugar certo.

 

Sara Almeida

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10.11.17

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Foto: Blind - George Hodan

 

Deficiente é aquele ser incompleto, falho, a quem falta algo. Assim está no dicionário. Mas há que se pensar se nós, seres humanos, não somos por essência seres incompletos?

Na nossa sociedade é fácil reconhecer um deficiente por alguma característica física. Aquele que não pode se mover sem auxílio de uma cadeira de rodas, outro que segue seu caminho a tatear as ruas com um instrumento por não possuir o dom da visão. Algumas deficiências são explícitas, não há como se camuflar. Quem as possui tem que encarar as dificuldades impostas pela limitação física, além dos olhares de piedade das pessoas que andam pelas ruas, todos os dias.

No entanto, cada vez mais podemos observar histórias de pessoas incríveis que não aceitaram as limitações impostas pela sua condição física e vivem a vida da forma mais intensa possível. Desafiam os limites impostos pela medicina e pela sociedade e vivem suas vidas de forma intensa e inspiradora.

 

Por outro lado, há tantos outros deficientes que circulam na rua, mas não carregam no corpo de forma evidente a sua deficiência.

A falta de amor ao próximo é uma deficiência. A ignorância é uma deficiência. O preconceito é uma deficiência. A falta de humildade é uma deficiência. A falta de caráter é uma deficiência. A soberba é uma deficiência. Deficiências que não podemos notar só de olhar para a cara de um sujeito que, na verdade, pode parecer um ser impecável. Pode até ter um bom corpo vestido num bom fato. Mas tem a sua alma deficiente, deformada, degenerada. Como já dizia o ditado popular: “O pior cego é aquele que não quer enxergar”.

 

Leticia Silva

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6.11.17

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Foto: Sunrise - Martyn Cook

 

Estava um dia cinzento e chuvoso de outono. Sentei-me na esplanada coberta a apreciar o mar agitado.

“- O mar hoje está bonito! Várias tonalidades cinzentas e uma espuma alva borbulhante… Gosto do mar assim, revolto!” Diz-me com um sorriso entusiasmado.

Reparo que a voz vem do homem elegante sentado na mesa vizinha. Ao seu lado aninhado no chão, um cão-guia observa languidamente o tempo que passa.

Perante a minha reação estupefacta, ri-se: “- Ah ah ah! Deve achar estranho um cego como eu, estar a falar-lhe das cores do mar!”

“- Desculpe, não tinha reparado que é invisual. E surpreendeu-me o seu comentário quando o percebi.”

Continuámos a conversar até anoitecer e aprendi que não se É deficiente, ESTÁ-SE deficiente. Relatou que de certo modo todos somos deficientes em alguma função ou caraterística, quer do nosso corpo, quer da nossa vida nos seus variados contextos. Partilhou a sua opinião comigo, que a sociedade tem necessidade de catalogar as deficiências mais óbvias para as poder colmatar de alguma forma, integrando os cidadãos com essas deficiências.

 

Percebi que toda a pessoa é muito mais do que a sua deficiência ou limitação. Quando há uma limitação física, psicológica ou social, a pessoa tenta superar-se, exceder-se nas competências de que dispõe, como forma de mostrar a si e aos outros que também é capaz, que também está ativamente integrado na sociedade. Quando um dos órgãos dos sentidos está em falta, todos os outros se tornam mais apurados e desenvolvidos.

Tal como a vida é efémera, o estar saudável e ser considerado normal sem deficiências é efémero. Talvez se cada cidadão tivesse a consciência de que a sua “normalidade” não passa de um estado efémero, se tornasse mais disponível para compreender e tolerar as diferenças. Por doença, acidente, ou infortúnio, qualquer um de nós está vulnerável a uma alteração e perda das suas capacidades, da sua vida rotineira, normalizada. Como este meu novo amigo, companheiro de contemplação do mar e das suas tonalidades, num acidente de viação que lhe retirou a visão, mas o tornou ainda melhor observador do mundo à sua volta e mais além. Só é cego quem não quer ver!

 

Tayhta Visinho

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3.11.17

Business-man - Vigan Hajdari.jpg

Foto: Business-man - Vigan Hajdari

 

Incontáveis vezes escrevi sobre deficiência. Aliás, de uma forma ou outra, todos os dias úteis o faço. Trabalho na APPACDM do Porto, instituição que, desde 1969, presta serviços a pessoas com deficiência intelectual e multideficiência. Faço-o há quase 17 anos e já vi e passei por tudo um pouco. Curiosamente, numa área em que aparentemente pouco muda e nada se “cura”, já muito se alterou no tempo em que cá estou. Começando pelos nomes que se dão às pessoas (débeis mentais, oligofrénicos, atrasados mentais, deficientes mentais, pessoas portadoras de deficiência mental, etc.), passando pelo modelo de intervenção nas idades escolares, acabando na própria visão da sociedade face à existência da diferença e da diversidade humana.

Posso dizer que cedo repudiei etiquetas e categorizações ou avaliações desnecessárias (daquelas que só servem para o técnico que as executa sentir que está a colmatar inseguranças profissionais). Posso dizer que cedo percebi que o melhor deste trabalho (e até vocação) é as pessoas. Os débeis, os idiotas, os atrasados. Enfim, os mais genuínos na sua natureza emocional e comportamental. Sim, claro, todas as pessoas têm filtros e gerem a sua relação com o mundo e com os outros segundo uma ótica individual. Contudo, na relação com as pessoas com quem trabalho, encontrei relações de franqueza, simplicidade e amizade desinteressada. Claro que elas também manipulam. Claro que também mentem, mas mesmo assim as suas mentiras são maioritariamente “puras”, ou pouco relevantes no grande contexto das coisas.

 

Embora não seja minha função “ensinar”, eu sei que muitos aprenderam comigo. E reconheço que muito aprendi com estas pessoas. Humildemente reconheço que o que sou hoje, as minhas atitudes e os meus valores, muito se regem pelas infindáveis horas em que passei, partilhei e pensei com e para eles.

Não se dá o devido valor à palavra incapacidade. Continua a confundir-se (e muito) com deficiência. Continuamos a não perceber como somos mais parecidos do que diferentes. Com o desaparecimento de algumas pessoas vi-me forçado a confrontar a minha incapacidade em aceitar “adequadamente” a morte. Com os problemas graves de comunicação de algumas pessoas vi-me forçado a trabalhar a minha incapacidade em escutar os outros com a devida atenção. Da confrontação com as condições de saúde de algumas pessoas e a sua reduzida esperança de vida, percebi a incapacidade que tinha em reconhecer o extraordinário valor que a própria vida tem.

 

Desculpem o texto algo lamechas, mas a verdade é que a minha experiência de vida (dure o que durar), para sempre e profundamente marcada ficou pelas pessoas com quem tenho a sorte de estar durante a semana. E por aquelas que, já cá não estando, esquecidas nunca serão. Obrigado a todos vós por me fazerem mais capaz.

 

Rui Duarte

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30.10.17

Pierre - Salviad.jpg

Foto: Pierre - Salviad

 

Há deficiências e deficiências.

Há as físicas. E as mentais. São um triste presente da genética ou do ato do nascimento. Os “premiados” não escolheram, nem tão pouco podem devolver ou guardar num armário esta oferta indesejada.

 

Mas depois há um certo tipo de deficiência… que é do tipo intelectual. É aquela deficiência que se percebe quando se identificam certos comportamentos, ou quando se desenvolve um diálogo. É uma tacanhez, daquelas que limitam a visão; um egoísmo que inibe o desenvolvimento de valores nobres, uma arrogância que esbate qualquer outra qualidade que a pessoa pudesse ostentar.

Tenho pena, mesmo muita pena (talvez não seja pena…) destes deficientes. Porque estes, ao contrário dos primeiros, não têm consciência da deficiência da qual são portadores. E por isso não podem, jamais, tentar superar-se, melhorar, mitigar essa deficiência. Vistas curtas.

 

Sandrapep

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27.10.17

Wheelchair - LonelyTaws.jpg

Foto: Wheelchair - LonelyTaws

 

Cruzei-me com o Armando, o José Pedro, o Justino e o Rui por motivos profissionais. Conheci-os na altura em que estava a escrever uma reportagem especial sobre o Dia Internacional da Pessoa com Deficiência (3 de dezembro). Até então, não tinha tido contacto com pessoas portadoras de algum tipo de deficiência.

 

E perguntar-se-ão vocês quem eles são. São pessoas com caraterísticas como cada ser humano. O Armando era, na altura, deputado na Assembleia Municipal da terra onde vivia; ficou surdo com 13 anos. O José Pedro, um jovem de 24 anos, é amistoso e bem-disposto, com um espírito positivo contagiante e uma vontade de aprender que não lhe cabia no peito; tem paralisia cerebral. O Justino é voluntário e depois de uma fase menos boa deu uma oportunidade a si próprio e aprendeu a lidar com a cegueira que apareceu aos 28 anos. O Rui é escritor, psicólogo e ativista na área da deficiência; está numa cadeira de rodas.

Partilharam comigo as suas histórias. Enquanto os ouvia, ou quando li os seus testemunhos, vi neles o meu próprio reflexo. Vi neles um ser humano, com objetivos de vida, com sonhos, com medos, com esperanças, com utopias, com dúvidas, com incertezas… tal como cada um de nós. Não vi seres especiais, não vi heróis, não vi coitadinhos, não vi diferenças. Vi alguém com vontade de viver e não apenas de sobreviver, sendo aquilo que é sem direito a julgamentos ou discriminações. Como o Rui afirmou: “Não somos nada sozinhos. O que somos, somos porque temos alguém à nossa volta. E ninguém merece ser dispensado de ser quem é”.

Mas nem todos parecemos olhar para estes seres humanos como iguais. E é por isso que precisamos de um dia especial: para lembrarmos e demonstrarmos que somos todos iguais. Tal como o Armando disse: “A sociedade tem um dia para as pessoas com deficiência, mas esquece-se delas no resto dos 364 dias”. Valerá sempre a pena informar, sensibilizar e fazer perceber que ser diferente é bom. Porque a diferença não é o problema. É o poder que cada um de nós tem para compreendermos os outros e, simultaneamente, compreendermo-nos a nós próprios. Afinal, todos somos diferentes. Importante é sabermos viver com as nossas diferenças porque no fim do dia todos temos algo em comum: somos seres humanos. “Todas as pessoas têm deficiências. Aquilo que separa a normalidade da anormalidade é mais fino que uma folha de papel”, declarou o Armando.

 

Deixo aqui um excerto do texto que o Rui escreveu naquela altura para o jornal. Porque melhor do que falar sobre eles, só mesmo ouvi-los, ou lê-los, na primeira pessoa:

“É urgente que nos pare de tratar como heróis ou coitadinhos. Estas duas vidas que nos atribuem são de mentira, não prestam e não as queremos. Compreenda que por trabalharmos, rirmos, praticarmos desporto, namorarmos (etc.) não faz de nós heróis. Ressalvo que são poucos os que conseguem fazer tudo isso, mas asseguro-lhe, não são heróis. E muito menos a maioria que não tem essa oportunidade é composta por coitadinhos. São humanos, tanto os que considera heróis, como os que considera coitadinhos. Humanos. Como você, que coitadinho precisa criar heróis para provar que há vidas piores do que a sua. Não estamos dispostos a isso.”.

 

Sandra Sousa

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23.10.17

Parents and children - Kisss.jpg

Foto: Parents and children - Kisss

 

(Sei de Anjos que, apesar de condenados a viver na Terra, nunca perdem as asas nem a inocência)

 

Deficiência: não há modo “soft” de colocar a coisa - a palavra grita-nos, sibilante, o seu significado perfeitamente lato e negativista. E ninguém se furta à sibilina carga de preconceito que ela acarreta, sobretudo pelo medo que todos temos que um filho, um descendente, alguma criança, enfim, do nosso círculo mais estreito de afetos, nos nasça com um qualquer grau de imperfeição ou deformação física ou mental. Ninguém. Todos os pais, todos os parentes de futuros pais, mais ou menos serenamente, contornam esse receio, nem que seja pelo lado mais doce, confiante e otimista: “Menino ou menina?” – “O que se quer é que venha perfeitinho...”

E saudável. E que a mãe tenha uma hora pequenina. O resto não importa. Que venha perfeitinho, é o que todos queremos.

 

“E o que é a perfeição?”

Perfeição, no seu sentido imperfeitamente real e positivista, é ter as proporções consideradas normais e todos os órgãos no seu devido lugar e a exercer com precisão as funções físicas e mentais para que Deus as concebeu, quando nos programou.

Perfeição, no seu sentido mais transcendente, é nascer com a capacidade de se exceder. De ir além. De ver mais longe, mais fundo. De amar melhor. De superar barreiras. De vencer guerras e preconceitos. De ser forte. De sobreviver. De ser feliz.

Ser perfeito é dar-se por inteiro, em inocência e candura, à paixão por quem lhe aceita a imperfeição. Ser perfeito é ter nos olhos um amor desmedido e toda a confiança do mundo em quem lhe ampara a deficiência.

Ser perfeito é receber nos braços a Dor, e transformá-la em Amor. Ser perfeito é ter a ventura de descobrir o quanto é forte, o quanto é poderoso, o quanto é superior a todos os preconceitos do mundo.

 

Não é a todos, que é dada a oportunidade de descobrir o tesouro de Fé e de Força, escondido em si desde que nasceu - e o Amor, todos sabemos, não reconhece imperfeições nem deficiências físicas. Basta que conheçamos uma mãe “perfeita” ou um pai “perfeito” de um filho “imperfeito”. Basta que perguntemos. Basta que observemos: Há uma bênção maior, que os nossos olhos não reconhecem, mas que o nosso coração sente: não existe “deficiência”, para quem ama, existe apenas “diferença”. Não existem seres incapazes, existem seres especiais. Excecionais. E infinitamente capazes de amar além de todos os conceitos humanamente reconhecidos.

 

Teresa Teixeira

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20.10.17

Human-rights - Darwin Laganzon.jpg

Foto: Human-rights - Darwin Laganzon

 

A Declaração Universal dos Direitos Humanos prevê a igualdade de direitos para toda e qualquer pessoa, independentemente da sua condição ou proveniência. Cada linha dos seus artigos nasceu do comprometimento de vários Estados membros em cooperação com a Organização das Nações Unidas, proclamando o respeito universal e efetivo dos direitos do Homem e das suas liberdades fundamentais, sejam estas económicas, políticas ou sociais.

 

A minha amiga Susana, mulher extraordinária, teria muito a dizer sobre esta coisa poética da igualdade de acesso e de direitos das pessoas ditas portadoras de deficiência. Nas algumas décadas que já viveu, sofreu na pele a injustiça de uma sociedade patologicamente afetada, impregnada de preconceito, incapaz de ver para lá da sua própria perceção dos outros e das coisas. Se ela gostaria de poder fazer tudo que o comum mortal faz, sem depender de ninguém e ser, simplesmente, quem nasceu para ser? Não tenho dúvidas que sim, tão pouco a tremenda lucidez da Susana me permitiria dizer o contrário. Ninguém, para além dela e dos que partilham desafios semelhantes, sabe o que é viver segregado, aparentemente incluído mas permanentemente em luta, pelo simples direito a existir com toda a dignidade que merece e com toda a coragem que lhe corre nas veias – podia narrar, horas a fio, as muitas coisas fantásticas que ela já fez e que muitos de nós, sem qualquer (aparente) limitação, jamais fariam. Podia descrever, sem ter de florear nem um bocadinho, a força com que se bate todos os dias da sua vida por coisas que tomamos como garantidas e que não valorizamos sequer.

Pode até parecer que é à sua aparente condição física a que me remeto mas, na realidade, não pretendo sequer perder-me nesses pormenores. Quanto mais a conheci, mais me distanciei do que a tornava diferente e mais nitidamente entendi o conceito da verdadeira deficiência. Claramente, não era aquilo que a colocava numa cadeira de rodas mas sim o que lhe era oferecido, numa base regular, pelos que deviam protegê-la. A verdadeira deficiência estava nos que “se envergonhavam” de ir com ela à rua (e lho diziam, com estas mesmas palavras), dos que lhe lembravam todas as coisas que ela não podia fazer, dos que, partilhando o seu sangue, a rotulavam com uma designação que, afinal, nunca lhe pertenceu. Como deve ter doído, mais do que qualquer limitação física (sobretudo, aos olhos dos outros), a maldade dos “seus”, tão cristã (leia-se: levada a cabo por atos, palavras e omissões). Como pode um Ser feito de amor ser um alvo tão fácil?

Todavia, nesta verdade dolorosa, feita de muitos momentos de revolta, não sintam pena da Susana. No seu anonimato, ironicamente, e apesar dos muitos desafios que ainda enfrenta, já viveu mais do que muitos de nós viveram ou viverão. Ser feliz não é a ausência de obstáculos, de problemas, de grandes montanhas a transpor, mas uma escolha, obstinada e diária de, apesar de tudo isso, fazer o melhor de cada dia. É assim que a Susana vive a vida. Há pelo menos quinze anos, testemunhei a audácia desta corajosa mulher que saiu da casa materna solteira e voltou casada, contra tudo e contra todos; e é, desde então, amada, por um marido com um M enorme, por tudo aquilo que ela realmente é: linda, inteligente, criativa, ousada, partilhando, sempre, um sorriso belíssimo com quem tem o privilégio de a conhecer. Levante a mão quem conheceu o amor da sua vida, quem abraça um ser que ama e que lhe devolve amor, todos os dias, durante pelo menos década e meia. Incondicionalmente. Não tenham pena de quem nos lembra os nossos medos, as nossas limitações. Tenham esperança. Desejem, no mínimo, o mesmo.

 

Quero acreditar que caminhamos para um dia de verdadeira equidade, para uma sociedade que inclua todos os seus cidadãos, com dignidade, com respeito, valorizando o que cada ser humano tem de extraordinário. Vejo nas pequenas coisas grandes vitórias e, parte de mim, rejubila. A outra parte, lembra a “minha” Susana, as outras e outros tantos seres como ela, e o seu (ainda demasiado intenso) sofrimento pela inacessibilidade criada, sobretudo, pelas mentes pequenas com demasiado poder. Pelas vozes que os calam, gritando palavras como “verdade, justiça, progresso, inclusão, igualdade”, desprovidas de qualquer significado. Vozes que silenciam os únicos com legitimidade para falar, os que sentem na pele as tais “mudanças miraculosas apregoadas e que colocam todo o cidadão a viver uma vidinha sã e feliz” e que gritariam, sim, a angústia da ignorância alheia, a falta de meios, de condições, de corações preparados e de mãos dadas com a ciência, a acutilância de quem se acha imune ao sofrimento. “Está tudo uma maravilha, está cada vez melhor”, dizem. Outros que não quem de direito, note-se.

Reitero: quero acreditar que caminhamos num sentido mais positivo e humano mas sei que, enquanto andamos para trás e para a frente, regidos por leis bacocas e inviáveis, muitos sofrem. Enquanto me sento para redigir estas linhas, perde-se o potencial humano de tanta gente extraordinária neste planeta. Perde a sociedade que não percebe a singularidade da Susana, e de todos aqueles que considera diferentes, matando o seu potencial. Enquanto se luta por pôr em prática as verdadeiras leis da Equidade, talvez valha a pena investir na intervenção junto dos ditos normais para quem a normatividade é, afinal, uma muleta frágil e sustentada por uma visão limitada e desadaptativa, baseada no medo e na ignorância. São esses os verdadeiros deficientes: os cruéis, os preconceituosos, os críticos de tudo e de todos, os patologicamente insanos, aqueles para quem a Declaração Universal dos Direitos Humanos é apenas uma chalaça de folhetim. É esta a verdadeira deficiência da sociedade. É aqui que tudo começa. É aqui, e em cada um de nós, que deve terminar.

Desculpa, querida Susana, por viveres num mundo que ainda não te merece e que, mesmo assim, tornas tão mais belo pela tua simples existência. Espero, um dia, sermos dignos de gente tão especial quanto tu.

 

Alexandra Vaz

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16.10.17

Adult - Pexels.jpg

Foto: Adult - Pexels

 

Diretamente, ainda que titubeando, para as conclusões.

Confesso que não sei, não estou absolutamente certo, mas devo ter algumas, possivelmente tenho, é quase certo que sim. Estou a falar de deficiências. A minha sorte é que as minhas, várias, não são relevadas pela sociedade, aqui e agora, e passo como que incólume. Vejo mal, faltam-me alguns dentes, uso próteses para compensar. Não sei dar cambalhotas...

Vivo numa época e numa sociedade muito sensível à norma, à padronização e, também, nem sei se por contradição se por concomitância, à salvaguarda da diferença.

Talvez seja o caldo de cultura para a emergência do politicamente correto. Há os deficientes físicos, intelectuais, psicossociais, ai de quem os chame de coitadinhos, mas ao mesmo tempo e para as mesmíssimas gentes, a tentação do eufemismo impera. Não há cegos, mas invisuais, não há aleijados, também não fica bem verbalizar o termo “louco”.

 

Complicado. Contraditório? Pois, é a vida. Cairia o Carmo e a Trindade, naqueles unanimismos momentâneos e passageiros, se alguém usasse publicamente a denominação “inválidos”. Apesar de algumas pessoas com deficiência não terem condições de se valer a si próprios.

As coisas são o que são, de acordo com o tempo e com o lugar. Sempre.

Talvez valha a pena recorrer ao que, se bem penso, já vem desde a antiga e democrática Atenas - tratar o que é igual como igual e o que é diferente de forma diferente.

Nem mais, nem menos. Adequado, com aceitação, sem necessidade de eufemismos, que, diria, não são mais do que uma forma de dizer coitadinhos... dos inválidos.

Nada de coitadinhos. Voto contra!

 

Jorge Saraiva

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13.10.17

Courage - Tânia Dimas.jpg

Foto: Courage - Tânia Dimas

 

A ideia de deficiência está relacionada, geralmente, com as situações de quem sofre de doença, lesão ou limitação corporal. É compreendida ainda, por alguns, como um facto de má-sorte pessoal.

Todavia, atualmente, são cada vez mais os casos de pessoas que não se resignam com a sua condição de deficiente. Na verdade, todos os dias assistimos a verdadeiros exemplos de superação de dificuldades, de deficiências e de limitações físicas de quem não se conforma com os infortúnios da sua própria vida. Com frequência, ocorrem verdadeiros casos de superação, alguns deles em que os portadores de alguma deficiência, transcendendo-se na procura de objetivos, conseguem concretizar sonhos. Por isso, até são consagrados como heróis pela Sociedade que não lhes fica indiferente e que não lhes regateia compreensão e solidariedade.

 

A deficiência já não é um “bicho-de-sete-cabeças” de há anos atrás e muito menos um problema trágico. A evolução da Sociedade, a nível do seu ordenamento jurídico, ao impor direitos sociais especiais, e do Mundo Científico, no aperfeiçoamento de técnicas de reabilitação, muito tem contribuído para derrubar o preconceito da deficiência. De notar, contudo, que a superação de uma limitação física ou insuficiência de qualquer tipo não depende apenas das condições favoráveis que existam na Comunidade em que se está inserido e dos apoios e carinhos de familiares e de amigos que sejam dispensados à pessoa afetada pela deficiência; mais do que isso, será mister, mesmo indispensável, que a pessoa portadora dessas limitações acredite que é possível transcender-se, superar barreiras e dificuldades, rumo ao objetivo “sonhado”. A superação consiste nisso mesmo: exceder os seus próprios limites, ir mais além, afirmar-se na vida e de viver, se possível, sem dependências. A força de vontade interior, mental e intelectual, qual segunda natureza que é, na motivação da luta diária e persistente, constituirá seguramente a grande fonte inspiradora para quem não se resigna com o seu infortúnio.

 

José Azevedo

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